A importância do repertório motor na aprendizagem do Voleibol (26/04/2020)
Você já deve ter notado no seu contato com os alunos, que muitos deles chegam para aprender voleibol apresentando uma vivência motora abaixo do esperado para a idade.
Em geral são crianças que não podem brincar na rua por causa da violência, crianças sedentárias por conta do uso excessivo das variadas telas, aulas de Educação Física que não dão conta de explorar as habilidades e capacidades motoras, falta de locais públicos e incentivo para a prática de atividade física e esporte. Tudo isso compromete o ganho de repertório motor da criança e do adolescente.
Sabemos que as habilidades técnicas do Voleibol são difíceis de serem aprendidas, pois são movimentos construídos, seriados e abertos. Construídos porque precisam ser ensinados e não estão entre as habilidades motoras básicas, que a criança aprende sozinha e fazem parte do desenvolvimento motor normal como: andar, correr e saltar. Seriados porque são compostos de várias habilidades executadas em sequência, por exemplo, a cortada: temos a corrida, salto, movimento no ar, rebatida à bola e queda. Abertos porque, apesar de termos uma técnica de execução bem determinada, ela deverá ser adaptada a cada situação do momento no jogo. Exemplo: você vai executar a técnica da cortada num ataque e, de acordo com o levantamento realizado, sua passada será mais ou menos ampla, mais rápida ou mais lenta, você decidirá se vai executar um ataque mais direcionado para o fundo da quadra ou se a batida será direcionada direto para o chão. Isso é o que torna a habilidade aberta. A técnica é sempre a mesma, mas cada vez que ela é executada no jogo, deverá ser adaptada à situação de momento.
Sendo assim, o repertório motor com que a criança se apresenta para aprender a jogar Voleibol, pode sim, determinar como será esse processo de aprendizagem.
Se observarmos o modelo da ampulheta de Gallahue, veremos que de acordo com esse modelo, a criança até 6 anos de idade já deveria ter desenvolvido suas habilidades motoras básicas em estágio maduro (ou seja, consegue executar com facilidade), de 7 aos 10 estaria pronta para trabalhar com as combinações de movimentos básicos e, a partir daí, seguiria para a especialização nas modalidades. Na prática sabemos que isso dificilmente acontece.
Vocês, como eu, já receberam adolescentes que não sabem sequer pular corda. Ora, se o aluno não consegue adequar o seu salto ao movimento da corda, que dirá adequá-lo a um levantamento, executando uma habilidade complexa e junto da rede, sem poder tocá-la. Outro exemplo bem comum: crianças destras que chegam arremessando uma bola com o pé direito à frente (estágio elementar de desenvolvimento). Como ensinar o saque por baixo ou por cima, e mesmo a cortada? Esses são alguns dos exemplos, certamente você já vivenciou muitas outras situações como essas.
Em alunos com um bom repertório motor, não só fica mais fácil e rápida a aprendizagem, como também o futuro aperfeiçoamento e aprendizagem de novas habilidades. Isso sem falar no aspecto psicológico. Muitas crianças e jovens têm vontade de aprender, mas quando essa aprendizagem se torna difícil e lenta, a motivação inicial pode diminuir bastante.
No processo de desenvolvimento existem períodos sensíveis para cada capacidade ser desenvolvida. O período sensível de desenvolvimento da coordenação motora é de 6 a 12 anos. Se a criança teve boas oportunidades de movimento e foi bem trabalhada nesse período, terá facilidade para aprendizagem de novas habilidades. Caso isso não aconteça, o que fazer?
Não temos outra saída senão estimular ao máximo as capacidades coordenativas e aperfeiçoar as habilidades motoras básicas e suas combinações. Essas deveriam ser nossas prioridades antes do ensino da técnica do Voleibol. Como nem sempre isso é viável, indico que você faça um trabalho desse tipo paralelamente à aprendizagem da técnica, mesmo com alunos mais velhos. O estímulo adequado sempre vai causar uma melhora nessa condição. Mas o nosso tempo é sempre curto, como fazer?
Uma possibilidade é usar o período de aquecimento para isso. O aquecimento não deve servir apenas para elevação da frequência cardíaca. Ele deve ser planejado com carinho, assim como sua aula ou treino. E deve objetivar um ganho motor ou uma transferência de aprendizagem para a habilidade que será trabalhada na parte principal da aula ou treino (voltaremos a esse assunto em outra oportunidade). É preciso também objetivar o desenvolvimento das capacidades coordenativas na preparação física, ou então você pode incluir esse trabalho em tarefas do treinamento técnico.
Além do aspecto motor aqui abordado, sabemos que há outros aspectos importantes no processo de desenvolvimento da criança, que podem facilitar ou dificultar a aprendizagem das técnicas. Devemos realizar o ensino das técnicas sem levar em conta o acervo motor que a criança/jovem traz? E a maturação biológica, deve ser levada em conta nessa decisão? Teremos alunos tardios e precoces na maturação biológica. Será que independentemente desses fatores, aquele que aprender primeiro será, no futuro, o melhor? Que fique claro também, que aprender uma habilidade não é apenas executá-la corretamente, mas saber executá-la corretamente na situação de jogo, portanto, vai ser exigido do aluno um estado de prontidão adequado, para que ele aprenda de acordo com os princípios do processo de cognição-ação.
Qual a sua experiência a esse respeito? Como você considera esse tema?
Será que existe uma idade ideal para isso? Voltaremos a abordar esse assunto mais à frente. Reflita, comente.
Abraço