Treinador de Voleibol Moderno (27/07/2020)
O presente ensaio aborda um assunto que tem sido muito recorrente. Recebo constantemente solicitações de técnicos e professores para o envio de exercícios com bola, que possam ser aplicados em seus treinos e seus atletas. Se por um lado fico lisonjeado por ser fonte de consultas, por outro fico muito preocupado, pois tais consultas, em sua maioria, representam que muitos que trabalham com o nosso esporte não estão ainda prontos para tal empreitada.
Inicio lembrando algo muito curioso que ocorreu lá pelos idos das décadas de 1960 e 1970, quando o voleibol brasileiro engatinhava. A CBV, à época, querendo divulgar o voleibol para o público brasileiro e também faturar algum dinheiro, trazia anualmente uma ou duas equipes japonesas para jogar no Brasil. O Japão era, ao lado da antiga União Soviética, a maior potência do voleibol mundial. Essas equipes vinham obrigatoriamente a São Paulo, onde encontra-se a maior colônia nipo-descendente do país. O Ibirapuera ficava lotado, com 95% dos expectadores da colônia asiática. Era raro encontrar alguém que não fosse “japonês”, pois o voleibol entre nós ainda era um esporte com pouca popularidade.
Os treinos que essas equipes realizavam eram assistidos por praticamente todos os treinadores do voleibol da época, que anotavam, em seus cadernos, todos os exercícios que compunham cada uma das sessões que viam. Claro que no dia seguinte, você poderia percorrer todos os clubes para comprovar que tudo que havia sido visto no treino japonês, era copiado nos treinos das equipes nacionais! Poucos paravam para pensar se aqueles exercícios eram adequados para o nível de suas equipes, ou mesmo para a faixa etária, etc. “Se as equipes japonesas faziam é por que era bom”.
Voltando à nossa preocupação inicial, quanto às consultas e solicitações por exercícios com bola, vamos lembrar que os mesmos, sempre devem ter funções próprias e específicas.
Para que isso fique bem entendido, vamos recorrer à classificação dos exercícios com bola feita por Cardinal (2007).
ESTRUTURA DOS EXERCÍCIOS (Cardinal, 2007)
- EXERCÍCIOS SIMPLES
- EXERCÍCIOS DE SEQUÊNCIA SIMPLES
- EXERCÍCIOS COMPLEXOS
- JOGOS :
- modificados
- exercícios típicos de jogo
Essa classificação nos dá uma pequena mostra, que os exercícios com bola devem ser escolhidos em função dos objetivos de cada sessão de treino. Claro que um exercício SIMPLES visa uma determinada habilidade motora específica. Já o de SEQUÊNCIA SIMPLES, inicia a concatenação das habilidades motoras, enquanto os COMPLEXOS contemplam as ações do jogo, ou seja, side out ou contra ataques. Por fim, os COLETIVOS, ADAPTADOS ou não, visam a fluidez das ações do jogo como um todo.
Se transportarmos os conteúdos e características dos diferentes exercícios da referida classificação, para os diferentes momentos de uma periodização linear por exemplo, teremos que apontar que os exercícios SIMPLES e de SEQUÊNCIA SIMPLES seriam mais pertinentes ao período preparatório básico, enquanto os COMPLEXOS e os JOGOS, mais para os períodos preparatórios específicos e aos competitivos.
Devemos também, ao programar um exercício com bola, graduar a dificuldade e a complexidade do mesmo ao nível de cada atleta e da equipe. A metodologia é fundamental para o sucesso do treinamento. As tarefas, além de individualizadas, devem ser programadas de maneira a irem crescendo, em dificuldade e complexidade, para serem sempre estimuladoras para o aperfeiçoamento e crescimento dos atletas.
Para bem criar ou escolher um exercício para seus atletas de voleibol, o treinador deveria considerar os conteúdos explicitados por Matias & Greco (2010):
“A literatura descreve a importância da cognição, dentro do processo de ensino-aprendizagem-treinamento, para qualificar as respostas dos atletas perante as exigências dos Jogos Esportivos Coletivos. Consideram-se processos cognitivos: percepção, atenção, antecipação, memória, pensamento, inteligência, tomada de decisão, entre outros (Williams et al., 1993; Williams e Davids, 1995; McPherson, 1994; Sisto e Greco, 1995 et al, apud Matias e Greco, 2010)
A observação acima aponta a necessidade de as tarefas indicadas aos atletas, contemplarem os aspectos cognitivos envolvidos em cada situação, esperada ou não, em disputas de esportes compostos de habilidades motoras abertas, como é o voleibol. Ela também reflete a necessidade da prática, indicada pelos treinadores, ser compatível com os níveis cognitivos e motores de cada atleta, pois todos os fatores que compõem e interferem na cognição, e a consequente tomada de decisão, são individuais, e também dependem do tempo de prática.
O treinador deverá, portanto, ao escolher ou criar, mesmo os exercícios SIMPLES, ou os de SEQUÊNCIA SIMPLES, certificar-se que eles estimularão uma ação motora como consequência de aspectos cognitivos planejados. Em todos os momentos o comprometimento da formação do atleta inteligente deve ser o objetivo principal de cada atividade.
Podem dois levantadores executarem a mesma tarefa em uma sessão de treino? Podem, desde que não seja esperada igualdade em suas performances. Dois defensores realizando exercícios com o mesmo grau de dificuldade, mesma exigência de antecipação, de velocidade, técnicas e velocidade de reação, etc, apresentarão as mesmas respostas? Muito provavelmente não!
Temos então que os mesmos exercícios, quando aplicados para atletas diferentes, serão mais adequados para uns e menos para outros. Imagine-se dando um exercício de defesa para o Serginho Escadinha e o Gustavão. Você poderia esperar o mesmo rendimento de ambos? Claro que não, você diria: “O Serginho se sairia muito melhor”! E se o exercício fosse para ataque e bloqueio? Você sabe que as coisas se inverteriam, não é?
Repito: ao individualizarmos as tarefas, em um treino de voleibol, preocupados com a preparação do atleta inteligente, sempre é imperiosa a consideração dos aspectos cognitivos que estarão envolvidos na prática, e os esperados na competição. Isso nos leva a considerar sempre que nestas ações estarão embutidos dois tipos de pensamento: convergente e divergente (inteligência e criatividade).
A prática da mesma atividade por parte de um grupo de atletas infanto-juvenil e outro adulto, ambos de alto nível para a idade, não terá resultados semelhantes. A atividade programada também será subordinada a uma planificação tática de uma equipe ou a um plano de jogo.
Para eleger o exercício que será ministrado em um treino, o treinador deverá avaliar a adequação dele para os seus atletas (de forma coletiva e individualizada), para o nível técnico e tático de seus atletas, o momento da periodização, pois além dos aspectos cognitivos e de tática individual, o treinador precisa saber com qual dose irá aplicar o exercício. Quer dizer, qual a duração da prática e com qual intensidade que serão empregadas. A escolha também será decorrente dos objetivos metodológicos implícitos e determinados pelo planejamento para aquele momento do treinamento em curso.
A análise das características que os exercícios devem possuir para serem efetivos, nos leva a entender que cada atleta, cada equipe, cada momento e cada idade são únicos, portanto, cada atividade também é inigualável. Ela vai ser adequada, para aquele momento, para aquele atleta, para aquele grupo, para a preparação do plano estratégico para aquele jogo.
Este estudo foi elaborado visando mostrar que o treinador deve construir, criar e aplicar seus exercícios e não simplesmente copiar tarefas feitas por outros. Somente o treinador sabe das necessidades de seus atletas e sua equipe. Exercícios indicados por outros, podem ser utilizados desde que sejam muito bem analisados e adaptados para a realidade em que serão aplicados.
Assim como os atletas, os treinadores devem ter conhecimentos convergentes e divergentes. (inteligência e criatividade).
Para quem se interessa pelo assunto sugiro a leitura do texto que coloquei abaixo.
Matias, C. J. A., & Greco, P. J. (2010). Cognição e ação nos jogos esportivos coletivos. Ciências & Cognição, 15, 252-271.