Alguns perigos por trás dos calendários de competições do voleibol

 

O término do calendário internacional de competições deste ano (2021), no qual as principais seleções femininas foram exigidas aos seus limites, traz para os estudiosos do voleibol algumas reflexões que merecem ser feitas com muito carinho e atenção. Neste ensaio vamos analisar apenas os dados vindos das seleções femininas, pois são mais reveladores que os advindos das equipes masculinas. Entretanto, acreditamos que as conclusões poderão facilmente ser generalizadas.

 

As prováveis conclusões poderão fazer com que não somente as comissões técnicas, a partir deste ano, se preocupem com o planejamento de treinamentos e competições de suas equipes, mas também que cada atleta deverá cuidar, com muita atenção, do desenvolvimento de sua carreira profissional. Acreditamos que o assunto também mereceria reflexões por parte dos dirigentes: dos clubes; das nossas federações estaduais; além daqueles que detém o maior poder de decisão, que são os da CBV.

 

2021 está sendo um ano competitivo atípico para o voleibol, e talvez possa ser o “start” para a busca de novos comportamentos por parte de Federações Nacionais (no Brasil, CBV), clubes, treinadores e atletas, no sentido de equilibrar interesses. Para as entidades e comissões técnicas, as buscas de títulos são vitais, enquanto para os atletas, estas conquistas valorizam seus currículos, trazem melhores contratos, mas podem abreviar carreiras.

 

Iniciamos a apresentação de nossas preocupações lembrando que, como a pandemia “empurrou” a Olimpíada de 2020 para 2021, as duas Seleções mais vitoriosas da temporada (Brasil e USA), estiveram envolvidas em 3 competições de alto nível, realizadas fora de seus países, de 25 de maio a 19 de setembro. Primeiro disputaram a Liga das Nações, a seguir vieram as disputas dos Jogos Olímpicos de Tóquio e finalmente seus campeonatos continentais: para o Brasil, o Sul-americano na Colômbia; e para os USA a Copa Pan americana de voleibol, o torneio da NORCECA (North, Central America and Caribbean Volleyball Confederation), disputado na República Dominicana. Os intervalos entre as referidas competições foram de aproximadamente um mês.

 

Algumas equipes participantes da Liga das Nações optaram por levar um time mais jovem, ou um time “B”, como por exemplo Itália e China. USA e Brasil fizeram as finais tanto da Liga das Nações, em que ambas as equipes optaram por participar com sua força máxima, como das Olimpíadas. Portanto, deve-se acreditar que as atletas dessas equipes chegaram ao auge de suas condições atléticas em Tóquio, pois o Torneio Olímpico é a competição mais importante do calendário internacional do nosso esporte.

 

Após os Jogos de Tóquio, as duas seleções adotaram estratégias diferentes nas suas respectivas preparações para as suas competições continentais. Enquanto o Brasil optou pela busca de um resultado vitorioso no Sul-americano, os USA preferiu participar sem priorizar a conquista do torneio das Américas Central e a do Norte. O Brasil foi com sua força máxima, à exceção de Fernando Garay e Camila Brait que pediram dispensa, ao passo que a equipe norte americana compareceu à sua competição com quatorze novas jogadoras. Nenhuma das campeãs olímpicas esteve competido na República Dominicana.

 

Apesar de opções distintas, nenhuma das duas seleções conseguiu jogar o voleibol de qualidade que costuma apresentar. Os USA ficaram com o terceiro lugar, pois perderam na semifinal para o México, que é uma equipe de pouca projeção internacional. Já o Brasil foi campeão do Sul-americano, mesmo sendo derrotado no jogo final pela Colômbia por 3X1. As americanas mostraram um time com qualidade individual e coletiva muito inferior àquela que demonstraram na Liga das Nações e nas Olimpíadas, e o Brasil, apesar do título conquistado com a presença de 10 das vice-campeãs olímpicas, apresentou-se também muito abaixo do esperado no enfrentamento de rivais que tradicionalmente não ofereciam grande resistência ao nosso poderio. Individualmente as nossas atletas estavam muito fora de suas condições normais, fato que determinou um conjunto irreconhecível, em relação àquele que estamos acostumados a ver.

 

 Lições que essas duas condutas nos trazem:

 

1-Os calendários competitivos organizados pela FIVB e Federações continentais precisam ser repensados, pois o grande número de torneios e os intervalos reduzidos entre eles, muitas vezes não tornam compatíveis as preparações dos atletas para tais competições, assim como para as competições nacionais.

 

2- É muito comum clubes que possuam atletas em seleções nacionais, os quais são responsáveis pelos seus salários, fazerem com que o retorno dessas atletas às atividades no clube, após as competições internacionais, seja muito próximo destas, o que acarreta preparações coletiva e individual inadequadas. Isso traz prejuízos para as equipes dos clubes, mas também pode influir negativamente no desempenho dos atletas, a curto, médio e longo prazo.

 

3- É compreensível que os clubes que possuam atletas de nível internacional tenham alta expectativa quanto à performance das mesmas. Entretanto, atletas recém-saídas dos grandes torneios internacionais, estarão em condições de atuar dentro de seus melhores níveis de performance? Se em um torneio internacional importante o atleta atingiu seu “pico máximo” de performance, é natural que se espere uma queda de rendimento na sequência. No entanto seus clubes têm compromissos com seus patrocinadores e torcedores, portanto cobram rendimentos compatíveis com os investimentos realizados, e os atletas procuram corresponder às expectativas na busca de vitórias e manutenção de sua imagem.

 

4- Qualquer indivíduo minimamente informado sobre planejamento e periodização da atividade esportiva competitiva, sabe que a manutenção de altos níveis de performance é impossível por tempo prolongado. A tentativa de se alongar altos padrões de produtividade pode levar a esgotamentos físicos e mentais que são fenômenos de consequências muitas vezes imprevisíveis.

O desequilíbrio entre carga e recuperação causa o overtraining que leva à perda do desempenho. O overtraining gera sintomas físicos e sintomas de natureza psicossocial: problemas sociais (família, namorado(a), técnico, amigos); sentimentos negativos (falta de interesse no treino e competição); diminuição da autoconfiança e habilidade de concentração, irritabilidade, depressão, tristeza, e aumento da percepção de estresse. Quando ele se prolonga por meses, pode levar ao burnout.

Weinberg e Gould (2008) definem a síndrome de burnout como um esgotamento causado por esforços intensos e por vezes ineficazes no treinamento e competição, que se refletem em respostas físicas e psicossociais. A síndrome de burnout, que é o esgotamento, causa o dropout, que é o abandono.

Não por acaso, todos os modelos de periodização preveem, após os períodos competitivos mais importantes, um período regenerativo, não só para prevenir overtraining, Burnout ou dropout. Essa estratégia não só garante a manutenção e o crescimento da performance esportiva, como também auxilia na manutenção da saúde dos atletas em sua dimensão completa: física, mental e social. Ela também colabora para a obtenção por parte dos atletas, de longevidade tanto quantitativa como qualitativa.  

 

 

Em função dos aspectos determinantes para o desenvolvimento das carreiras das atletas, passamos a levantar algumas preocupações que elas e seus agentes devem refletir:

 

1 - O Clube onde a atleta está, ou para onde pretende se transferir, possui uma infraestrutura capaz de atender todas as necessidades que uma atleta tem, ou pode vir a ter?

 

2 - A comissão técnica de seu clube tem conhecimento para oferecer treinamentos físicos, técnicos e táticos compatíveis com as suas características e necessidades? Naquela equipe seu rendimento vai crescer, estagnar ou cair?

 

3 - Com quais tipos de especialistas profissionais a comissão técnica do clube é formada? (técnico, auxiliar, preparador físico, fisiologista, médicos, psicólogo, estatístico, nutricionista etc.)

 

4 - O clube otimizará as participações competitivas de maneira a atender aos seus objetivos em conformidade aos das atletas?

 

5 - Atletas em formação serão titulares ou reservas?

 

6 - Para atletas selecionáveis, haverá um bom relacionamento entre as comissões técnicas do clube e da seleção no planejamento de seu treinamento?

 

Fizemos as indagações acima para alertar atletas, quanto à necessidade de bem gerenciar suas carreiras profissionais. Como vimos nos exemplos que Brasil e USA nos deram, num ano como este, com um calendário tão sobrecarregado, as exigências sobre os atletas tendem a ser cada vez maiores fazendo com que as preparações sejam mais centradas na performance das equipes, tornando menores os cuidados com a integridade individual dos atletas.

 

Não devemos esquecer que essas atletas das equipes adultas, passaram, na sua grande maioria pelas categorias de base das equipes de seus países, e vêm, portanto, passando por esse acúmulo de competições, desde muito cedo. A importância de um bom gerenciamento das carreiras dos atletas não deve se restringir apenas à idade adulta. Há uma tendência no aumento do número de competições internacionais tais como: sub 23, sub 21, sub 19, sub 17 etc. Isso exige que os responsáveis pela formação de atletas não só sejam bem preparados em termos técnicos, como também em termos éticos. O excesso de competições nessas categorias, que representam um momento do crescimento e desenvolvimento do voleibolista, pode levar ao comprometimento da longevidade qualitativa e quantitativa. O jovem quer competir, portanto, cabe aos profissionais em sua volta planejar e dosar suas intervenções.

 

Como este assunto envolve muitos interesses diversos, acreditamos que para o bem do voleibol de alto nível, há a necessidade de um bom e claro entrosamento de todas as partes envolvidas, caso contrário todos saem perdendo. Comissões técnicas de clubes e seleções, atletas e seus agentes, dirigentes de clubes e entidades, necessitam planejar juntos. Para os atletas aconselhamos uma gestão inteligente e otimizada de suas carreiras, pois dinheiro rápido, fama repentina, muitas vezes pode também significar um fim precoce de carreira.

 

Para encerramos voltamos ao início desta reflexão deixando para vocês, caros amigos leitores, duas indagações:

 

1 - Você acredita que se os USA tivessem participado do Torneio da NORCECA com todas as suas jogadoras campeãs olímpicas ele teria mostrado o mesmo rendimento que teve em Tóquio e seria o campeão? O Os americanos fizeram bem em poupar suas principais atletas dando chances para outras adquirirem experiência internacional?

 

2 - Você pensa que se o Brasil fizesse como os USA e tivesse disputado o Sul-americano com outro time, dando oportunidade para que outras atletas adquirissem bagagem internacional, teria conquistado o título? Temos um número de boas jogadoras, suficiente para montarmos um time “B” bom o suficiente para ganharmos o referido torneio?