Contra o racismo no esporte: a inspiração de João Crisóstomo Marcondes Bojikian

 

Cenário 

          Estávamos no ano de 1970, em plena ditadura. O então aluno da USP no curso de Educação Física na parte da manhã, e no curso de Geografia à noite, João Crisóstomo Marcondes Bojikian, recebe um convite para trabalhar com voleibol no Clube de Regatas Tietê. Detalhe: ele não conhecia nada sobre voleibol. Combinou algumas aulas particulares com seu colega de curso na Educação Física que sabia jogar voleibol (embora fosse da dança), o colega Edson Claro, que, nessas aulas, o ensinou também a executar uma manchete. 

          A partir daí passou a se interessar pelo voleibol. Na graduação, foi incentivado pelo professor José Frascino, uma grande inspiração. À época, o João era também professor de Educação Física numa escola estadual na Vila Bonilha (São Paulo). Largou o curso de Geografia após o primeiro semestre quando percebeu que não daria conta de levar os dois cursos e que sua paixão era maior pela bola de voleibol do que pelo globo do mapa- mundi.  

          Estudou também por conta própria, fez o curso de arbitragem da Federação Paulista de Volleyball e, em 1972, vendeu seu fusca para ir às olimpíadas de Munique na Alemanha, assistir a aprender sobre Voleibol. Foi uma total imersão: dos 52 jogos da competição, assistiu a 48. Isso acabou lhe custando uma DP no curso de Educação Física. Foi assim: o professor de judô da faculdade, matéria na qual ele não ia muito bem, chamou-o na aula em frente da turma e pediu que ele compartilhasse o que tinha visto de judô na olimpíada. Ele, muito sincero, disse: “nada.” Foi direto para a DP. 

          Quando estava como técnico do mirim feminino do Tietê, o técnico do adulto do clube foi embora e lá foi o Joãozinho assumir o time adulto, o juvenil e o master. Como as atletas já eram mais velhas, e lembrem-se, amadoras, após 2 anos como técnico do adulto, algumas resolveram abandonar o esporte e aí a equipe adulta e juvenil foram desfeitas. 

          No início do trabalho no Tietê, o time era tão inexperiente quanto o técnico. A equipe mirim do Tietê foi inscrita no Campeonato Metropolitano de São Paulo. Nós (eu estava lá) não sabíamos nem trocar de posição, jogamos em 6x0 contra times muito mais estruturados. Ficamos em último lugar no campeonato. E assim, esse mirim foi passando a infantil, infanto, outras meninas vieram formando a base. O técnico foi se especializando e o time também foi amadurecendo. Esse primeiro grupo formado no Tietê quase foi campeão Paulista Juvenil, mas Kombi que levava o time pra São Bernardo para a disputa da final quebrou na avenida do Estado e perdemos a final por WO.> 

À medida em que o trabalho do João evoluía, crescia também a sua fome por aprimoramento. 

 

Arigatô, Japão  

          Em 1976 o João resolveu que ia aprender voleibol com os melhores do mundo. e sem falar um “arigatô”, e nem inglês (tinha estudado um pouco de francês), foi para o Japão. 

          O Japão era campeão olímpico, mundial, tinha as equipes mais fortes do mundo, tanto no masculino quanto no feminino. O Japão criou toda uma filosofia de jogo baseada muito em defesa e ataques de velocidade, para poder enfrentar as equipes russas, por exemplo, que eram bem mais altas e fortes. As jogadas de velocidade no ataque com fintas e bolas rápidas, surgiram no Japão, que encantava o mundo com o seu volume de jogo. O time japonês ensinava ao mundo que, mesmo em um jogo onde altura e força são importantes, técnica e tática podem prevalecer.  

          Em pleno inverno japonês, lá foi o João, que estagiando nas principais equipes da época e tirando bastante proveito de um técnico que falava um pouco de espanhol. 

Comprou livros em japonês e assinou por muitos anos uma revista de voleibol japonesa. Às vezes mandava traduzir alguma coisa e, na maioria das vezes, aproveitava muito as fotos de jogos e treinos. Mais tarde, faria também um curso no Brasil com o técnico japonês Yasutaka Matsudaria, campeão olímpico e mundial, com o qual aprendeu muito. 

          Quando ele voltou do Japão, onde ficou 45 dias, trouxe uma mala e colocou no meio da quadra, chamou todas as meninas e abriu a mala. Lá tinha para cada uma de nós, um par de tênis Tiger (hoje Asics), que era o melhor tênis da época, e um jogo de camisas lindíssimas. Imagine a nossa festa, nós que jogávamos com Conga ou Bamba. Até hoje não sei de onde ele tirou dinheiro para isso. Naquela noite foi difícil tirar o tênis do pé, pois queria dormir com ele. 

          Os treinos ficaram fantásticos. Muita defesa, muitos rolamentos e peixinhos, muita técnica. 

 

Crescimento dentro e fora das quadras 

          Enquanto as equipes do Clube de Regatas Tietê ficavam cada vez mais competitivas, e conquistando cada vez mais resultados, havia todo um trabalho psicológico por trás, que nos fazia mais fortes. Lembrando que o voleibol da época era amador. O técnico, na maioria das vezes, fazia também a preparação física, psicológica, montava a rede e muitas vezes dirigia a Kombi.  

          Éramos um clube pobre que jogava contra os todo-poderosos Pinheiros e Paulistano, clubes da elite paulistana. Entrar naqueles clubes e jogar naqueles ginásios era espantoso para nós. Atento, o João se preocupava para também no sentido de que nós não nos deixássemos intimidar pela condição social, pedindo para que jogássemos o que sabíamos. Era muito legal poder jogar com aquelas bolas novinhas (as nossas eram literalmente descascadas). Normalmente o clube mandante cedia as bolas do jogo, mas quando o mando era nosso, era impossível, pois as nossas eram péssimas. Enquanto as adversárias jogavam com uniformes impecáveis (o Paulistano tinha um uniforme que era uma camisa de marinheiro, vermelha e branca e elas jogavam com uma sainha branca pregueada), o nosso uniforme era lastimável e um só jogo de camisas servia para todas as categorias.   

          Para que nos uníssemos e fortalecêssemos como grupo, o João criou o MIV (Movimento de Integração do Voleibol), e tínhamos até carteirinhas rosa e com foto, que nós mesmas fazíamos. O MIV tinha uma presidente e uma diretoria, e realizava reuniões em que procurávamos identificar coisas que mais precisávamos, e coisas que podíamos fazer para melhorar nossas condições de treino e jogo. Fizemos rifas, bazares, e festas para arrecadar dinheiro para bolas e uniformes. 

          Nunca vou esquecer, assim como todas as meninas envolvidas nisso, do dia em que fomos todas para a minha casa, com um jogo de camisas genérico, que não tinha numeração nem símbolo do clube. Recortamos tudo em feltro, e colando e costurando nós nas camisas. Dá para imaginar o que sentíamos ao vestir aquelas camisas feitas pelas nossas mãos? Em vez de vergonha pelo uniforme precário, sentíamos um orgulho danado, pois isso representava nossa força, nossa perseverança, nossa união. 

          Com o passar do tempo, os resultados começaram a aparecer e, em 1977, o nosso infantil tornou-se tetracampeão Paulista e o juvenil foi vice-campeão. 

 

O caso de racismo 

          Por conta do sucesso no feminino, começou um trabalho de escolinha e mirim no masculino. Todo o departamento de esportes do CR Tietê funcionava da seguinte maneira: os atletas eram associados do clube ou sócios militantes, em número limitado, que ganhavam alguns direitos no clube por jogarem e representarem o clube em competições. Entre esses direitos, estava o uso das piscinas. 

          Tudo começou com um certo dia em que uns meninos militantes foram à piscina brincar. Alguns sócios do clube ficaram indignados e pediram que eles se retirassem da piscina: eles eram pretos.  

No dia seguinte eles foram impedidos de entrar no clube para treinar (ver depoimento do Paulo Rogério). 

          O Waldemar, técnico da escolinha do masculino, contou para o João o ocorrido, que foi conversar com os diretores do clube para esclarecer o ocorrido e tirar satisfações. A diretoria do clube manteve a posição: os meninos foram expulsos do time, e por consequência, do clube. 

          O João então, reuniu todos os atletas (cuja maioria era do feminino, mas escolinha e mirim masculino também) e seus pais. Na assembleia foi discutida a questão: se todos os atletas militantes tinham direito a usar as dependências do clube, inclusive a piscina, por quê os meninos pretos não? Isso era certo? Era justo? Os pais foram questionados: que tipo de pessoas e cidadãos queriam que seus filhos se tornassem? Qual a lição de vida para eles, se decidissem ficar como se nada tivesse acontecido?  

Sempre acreditamos, o João e eu, e isso sempre é frisado nos cursos dos quais participamos, que o treinador antes de tudo deve ser um educador, formador de pessoas, principalmente quando se trata de trabalhar com crianças e adolescentes. 

          Em assembleia, decidimos todos, todas as categorias, do masculino e feminino, abandonar o clube, em protesto. O esporte não forma só atletas, forma cidadãos. Ele nos ensina valores, e valores precisam ser vividos - e defendidos quando atacados.  Lá se foi o time tetracampeão infantil, mais o juvenil, mirim e escolinha, masculino e feminino. 

          Na época essa história toda foi parar nos jornais. Já éramos casados, João e eu. Um belo dia toca a campainha do nosso apartamento. Era um grupo de pessoas do Movimento Negro. Eles queriam que o João contasse o ocorrido e fizesse um discurso para os membros do Movimento e para o público. Sabe onde? No Viaduto do Chá! Lá foi o João discursar para uma pequena multidão no Viaduto do Chá. Falar em público para ele nunca foi difícil, visto que havia sido líder estudantil no colégio e já havia falado em muitas assembleias. 

          O clube foi indiciado pela lei Afonso Arinos, que pune a discriminação racial. Confrontado por alguns membros da imprensa, o clube resolveu processar o João por calúnia e difamação, processo que não foi em frente. O caso ganhou espaço na mídia e o João foi procurado pelo Idibal Piveta, advogado que trabalhava contra a ditadura e defendia presos políticos. Uma das figuras importantes que lutaram pela democracia. 

          Fomos acolhidos pelo Esporte Clube Banespa, que na época tinha uma equipe masculina forte e apenas 2 categorias do feminino, que nem disputavam campeonatos da Federação Paulista. Era o ano de 1978. Era bem difícil nos deslocarmos para o clube que fica na zona sul de São Paulo, no bairro de Santo Amaro, sendo que nós éramos todas da zona Norte, Santana e adjacências. Por conta disso, nem todos os atletas prosseguiram no esporte. A maioria dos meninos expulsos do Tietê também foram para lá, e continuaram sua formação esportiva no Banespa ou no Clube Palmeiras. Um deles, o Paulo Rogério, tinha muito talento e determinação e fez uma carreira brilhante no voleibol, tendo chegado até a seleção brasileira. 

 

Depoimento do Paulo Rogério 

O ocorrido na piscina foi no sábado. Em seguida, fomos treinar na semana seguinte, terça-feira, onde fomos informados pelos técnicos Vagner e Waldemar sobre o não poder treinar/entrar nas dependências do clube por sermos pretos. No treino seguinte, quinta-feira, fomos adentrar para o treino e estavam esperando jornalistas que registraram o impedimento de acesso ao clube. Isso deixou marcas nos adolescentes de 13/14 anos, enfrentando um descaso assim. Os 4 meninos barrados éramos titulares com potencial de ser campeões Paulista e estadual... 

Depois houve as reuniões com toda comissão onde o João se posicionou contra a atitude do clube... 

Um dos meninos virou advogado... o outro trabalhava no Estado de São Paulo até onde soube... e com o terceiro não tive mais contato depois do ocorrido. 

É uma questão assim, que você fica fragilizado porque a gente não espera isso, né, justamente quando você tem essa idade (13, 14 anos), você cria toda uma expectativa, né, todas as possibilidades. E de repente você se vê barrado por uma questão que a gente não acredita, quer dizer, isso tudo por uma questão de cor de pele? E o que aconteceu foi que no caso eu me fortaleci também com isso, né, não me fragilizei. Eu falei: vou buscar o meu espaço. Só que nesse meio tempo também, como ficou longe o clube Banespa, eu não tinha condições de ir, por questão financeira também, e aí fui buscar outro recurso e fui trabalhar num banco. Quando eu já estava trabalhando lá, veio o convite pra voltar a jogar no clube Palmeiras, onde o técnico era o Branco, e eu voltei a treinar e jogar onde começou todo o processo da minha carreira no voleibol, mas mesmo assim ainda ficando com a marca, né, será que vai acontecer novamente? Até a minha mãe na época também falou que o que aconteceu provou que esse esporte é pra branco, é pra gente rica, não é pra negro, pobre. E acredito que foi uma quebra de pensamento porque aí começaram a aparecer outros jogadores negros, né? Porque eu comecei a ver também que tinha o Negreli, tinha o Aluísio, tinha o Marcão, que eram bem mais velhos que eu, e que eram referências no vôlei, eram poucos que tinham, e com o tempo foi aumentando, e criando essa possibilidade de poder também participar, independente da questão racial, da questão financeira. Acho que cada tem seu espaço de buscar aquilo que você tem vontade e que lhe é de direito também. Então foi assim, de repente muitos se abalariam, e falariam que não queriam mais, mas pra mim foi o contrário, me fortaleceu. Me fortaleceu pra que eu buscasse o meu espaço naquilo que eu fazia de melhor, independente do que fosse, sempre com educação, independente da minha cor, da minha raça, sabia que todos tinham que me respeitar.” 

  

Notícias na imprensa 

          "Na noite de 7 de julho de 1978, um grupo com cerca de 2.000 pessoas —a maioria negros— compareceu às escadarias do Theatro Municipal, no centro de São Paulo, para protestar contra a violência policial e a discriminação racial. O objetivo era dar uma resposta à morte de um trabalhador negro, Robson Silveira da Luz, nas dependências do 44º Distrito Policial de Guaianases, dias antes, e à expulsão de quatro jovens negros da equipe de vôlei do Clube de Regatas Tietê, no mês de maio daquele ano." Portal G1 BBC News 27/11/22 

 

"...Um daqueles jovens vítimas de racismo, Paulo Sérgio Moreira Gomes, hoje um advogado tributarista de 59 anos, falou pela primeira vez sobre o trauma que o episódio trouxe para sua vida. "Acho que aquilo me causou um sentimento de inferioridade, um certo problema de autoestima", disse ao jornalista Fernando Granato da Folha de São Paulo (13/05/23)https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2023/05/ex-atleta-vitima-de-racismo-durante-a-ditadura-buscou-superacao-nos-estudos.shtml 

 

"Já em 27 de julho, o jornal noticiava que o Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo) concluíra que "não houve racismo no Tietê". O delegado responsável pela investigação, Silvio Pereira Machado, aceitou a explicação da diretoria do clube, segundo a qual "os jovens negros foram apenas impedidos de treinar aos sábados e não impedidos de entrar nas dependências da agremiação...Naquele mesmo ano, quatro garotos negros, atletas da equipe mirim de vôlei do Clube de Regatas Tietê, foram barrados no clube. Ao reclamar do acontecido, o técnico teria ouvido de um dos diretores: "Se deixar um negro entrar na piscina, cem brancos saem." Folha de São Paulo (27/07/23)

 

 

          Uma das meninas que faziam parte desse grupo era a dra Kátia Rúbio, hoje professora associada sênior da Faculdade de Educação da USP, especialista na área de Psicologia do Esporte, reconhecida internacionalmente. 

 

Depoimento da dra Kátia Rubio 

"Era década de 1970, também lembrados como os anos de chumbo. 

Eu era filha de uma família de operários, moradores do bairro da Freguesia do Ó, periferia da cidade de São Paulo. Estudava em escola pública, era apaixonada por esporte e praticava tudo o que era possível na Escola Estadual de 1º e 2º graus Professor Augusto Ribeiro de Carvalho. As condições de vida eram boas se comparada com a maioria de meus colegas de escola: morávamos em casa própria, meu pai tinha um fusca, nas férias de verão passávamos uma semana no litoral e o lazer era encontrar amigos para jogar vôlei onde houvesse uma quadra. 

Certa vez fui convidada a fazer um teste no Clube de Regatas Tietê. Na cabeça de meus pais isso não era coisa para nós, sócios do Nacional Atlético Clube, perto de casa e sem grandes tradições com outros esportes que não o futebol. Naquela época minha mãe, Dona Darcy, me apelidou de Ideia Fixa por conta de minha determinação em chegar aos objetivos traçados por aquela cabeça que ainda não tinha 14 anos. Pensou ela que eu desistiria da proposta, mal sabendo que num conchavo doméstico chamei minha irmã mais velha, que também jogava, para essa aventura. Se suportar a pressão de uma criança já não era fácil, de duas era batalha perdida. 

Fomos ao clube e ambas passamos no teste. A nosso favor contava a oferta de uma perua Kombi que nos buscaria e traria de volta todos os dias, na porta da escola. Fora isso, nada mais do que nossa vontade. Naquele tempo não existia esporte profissional e o sonho de todos que começavam a jogar em clube era um convite para o projeto Adote um Atleta, que acontecia no Centro Olímpico do Ibirapuera. Nunca cheguei perto de ser considerada para o projeto então meu foco era treinar e competir pelo Tietê, a potência feminina da época. 

Viajar da Freguesia do Ó até a Ponte Pequena já era uma quebra na profecia autorrealizadora de que no bairro nascíamos e por ali ficaríamos. O trajeto realizado pela Marginal do Rio Tietê já prenunciava que o mundo poderia ser de quem quisesse, desde que algumas barreiras fossem vencidas, fosse por uma ideia fixa, fosse pelo sonho compartilhado de uma família em ter uma atleta entre os seus. Seu Hilário, meu pai, do alto de seus 1,92m de altura amava o basquete e também todos os outros esportes. 

Não havia deslumbramento maior do que chegar naquele clube e caminhar até o ginásio de onde se podia ouvir o som das bolas quicando, das solas dos tênis freando a passada e dos gritos das meninas incentivando umas às outras. Tudo era mágico. Quando entrava no vestiário ali estavam outras garotas militantes (jogadoras, porém não sócias do clube), originárias de outras escolas da zona norte da cidade de São Paulo. Ou seja, entre as meninas do mirim era como se o vestiário do clube fosse uma extensão do vestiário da aula de Educação Física da escola. Até que chegavam as mais velhas e pela primeira vez eu estive lado a lado com atletas da seleção brasileira, meu desejo maior de infância. 

Uniformes postos, joelheiras nas canelas, cabelos presos era hora de pisar a quadra. E ali estava um dos homens mais bravos que eu tinha conhecido na vida, depois de meu pai: o técnico João Crisóstomo Bojikian. Ele era alto, magro, fumava muito e falava em um tom muito afetuoso, quando dava instruções iniciais e gritava mais alto e mais feroz do que qualquer outro quando não cumpríamos suas instruções, daí a impressão de que ele era bravo. Lembro que eu buscava as bolas, quando não estava executando as tarefas ordenadas, ou me esmerava em realizar as instruções, só para não ter que ouvir uma de suas repreensões. 

Como a perua do clube saía cedo da escola para o treino do mirim, as meninas do infantil e do juvenil iam todas em uma única viagem. Chegando no clube elas dispersavam e voltavam apenas para seus treinos. Eu tinha fome de bola. Fazia meu treino mirim e ainda ajudava no treino do infantil e do juvenil, pegando bolas ou executando funções que me fossem determinadas. 

Essa era a rotina dos 3 dias da semana em que saíamos de nosso bairro. Escola pela manhã e treinos de segunda, quarta e sexta-feira à tarde, voltando para casa já noite, uma experiência de liberdade até então desconhecida. 

E assim foram alguns anos. Se no clube eu não tinha destaque em função de meu porte físico e minhas qualidades técnicas, tudo aquilo que eu aprendia no clube me fazia ser destaque na escola e nas competições escolares. Foi por meio delas que a Freguesia do Ó se tornou pequena e eu pude ir para outros bairros, nessa imensa cidade chamada São Paulo. O esporte me deu autonomia. E quando o clube retirou a perua que nos transportava, e meus pais foram categóricos em dizer que nós não iríamos mais treinar, João se dispôs a me levar em casa, juntamente com sua esposa Luciana, em seu Karmann Ghuia TC verde, até minha casa. Chegando lá, meu pai abria a porta, eu entrava em casa e só então João e Luciana partiam para o seu descanso. 

Certa feita, ao chegarmos no clube, o ginásio de voleibol estava em silêncio, sinal de que algo grave havia acontecido. Ao avistar a arquibancada as meninas estavam todas vestidas com roupas sociais, em silêncio, e João estava mais sério do que o habitual. Cada uma que chegava subia, se sentava e em silêncio aguardava instruções. Era evidente que algo muito sério havia acontecido. Quando deu o horário do treino João começou a falar. Em tom grave descreveu o que havia acontecido no dia anterior: alguns meninos sem qualquer justificativa de mal comportamento, atletas militantes, como a maioria de nós ali naquela arquibancada, haviam sido impedidos de entrar no clube. Ainda que ele tivesse intervindo para que aquilo não se concretizasse, os seguranças do clube foram irredutíveis em sua ação, e tudo fazia crer, que com a ordem de diretores do clube. E quanto mais se tentasse reverter a situação, mais se evidenciava que a razão para o impedimento era o fato deles serem negros. Ou seja, a questão ali não era técnica, nem comportamental, era discriminatória, era preconceito racial. 

Volto a lembrar que vivíamos na década de 1970, em plena ditadura militar, com os meios de comunicação sob censura, com um controle extremo de atividades políticas ou culturais engajadas. E apesar de tudo isso esse fato reverberou nos meios de comunicação, alcançando a primeira página dos principais jornais da cidade. 

Vindo de uma família altamente politizada era claro que a atitude tomada por João tinha uma razão humana inquestionável, mas para a época parecia subversiva. A palavra “denúncia” soava como afronta e ao mesmo tempo de uma coragem pouco comum ao momento e ao esporte. Abraçando a causa e afirmando que o gesto de exclusão vivido pelos garotos não condizia com sua forma de educar pelo esporte, de formar um time campeão com valores originados em escolas periféricas e acima de tudo que não era possível continuar a liderar uma equipe vencedora dentro de uma instituição que não respeitava seus valores, João decidiu agir e nos convidou a seguir com ele. 

Convocou os pais e mães de seus atletas para conversar sobre os rumos futuros. Não lembro ao certo o local da reunião, mas eu acompanhei meus pais Hilário e Darcy, para aquilo que parecia uma das assembleias do sindicato que meu pai frequentava. Muitos dos atletas também acompanhavam os pais, acostumados a ver um João-técnico-em-quadra, ou seja, aquele técnico enfático em seus atos e sempre muito exigente com seus orientandos. Naquele dia João era um líder com a mesma ênfase do técnico, afetado pelo tratamento desumano dado a seus pupilos, e carregava em sua voz o sentimento que lhe atravessou a alma. Anunciou, naquele momento, que diante das circunstâncias era impossível seguir no CR Tietê, mas o apreço que ele tinha pelo grupo o levava a sugerir a criação de um novo time. Se não me falha a memória, depois de um tanto de discussão, a maioria dos presentes aprovou a permanência do grupo em um novo clube cujo nome seria Palmares. 

Palmares não se concretizou e fomos para o Esporte Clube Banespa, no extremo oposto da cidade, e de lá segui ainda para São Caetano, onde encerrei minha carreira diante da inevitável escolha jogar ou estudar/trabalhar. Ali eu me despedia da infância esportiva e iniciava minha vida adulta. 

Hoje, sou uma pesquisadora da Memória e de Narrativas Biográficas na Universidade de São Paulo e a partir das referências teóricas com as quais trabalho sei que parte do que aqui descrevo pode ser falsas memórias ou mesmo memória coletiva. Mas, o que tenho certeza é do quanto a atitude do “meu” técnico João Cris impactou minha vida. Eu não cheguei a ser uma grande atleta, mas João me ensinou precocemente o que é liderar, o que é educar, o que é respeitar, com seus gestos como técnico e como ser humano. Sofri terrivelmente quando não pude mais seguir com o esporte, mas não deixei de segui-lo onde ele estivesse. Eu o vi formando diferentes gerações de atletas e depois de formadores. A coragem com que expôs o gesto de racismo na década de 1970 me fez entender que aquilo era mais do que proteger seus jogadores ou seu time. Aquilo era um valor moral seu que transbordava em suas ações dentro e fora da quadra. 

Quando enfim enfrentei os desafios de pertencer a uma universidade como a USP percebi o quanto essa experiência foi determinante em minha vida. Em meu memorial de ingresso e de outros concursos que prestei João sempre esteve presente em minhas memórias de formação como alguém que não se satisfazia com a média de suas atletas. Ciente do potencial que a ele se apresentava ele queria a excelência. Mais que um técnico ele foi meu modelo de liderança e de educador. E, se hoje a luta antirracista está presente em nosso cotidiano, é fundamental destacar que, no esporte, isso vem de antes, muito antes dos tempos presentes, quando a “minha gente falava de lado e olhava pro chão”, como canta Chico Buarque. João me ensinou que a coragem a parceira de vida que nos guia no caminho da coerência. 

João, que privilégio ter sido formada por ti. Que teu exemplo se multiplique.” 

 

          Vale lembrar que o voleibol era um esporte totalmente amador na época. Não tínhamos ajuda nem para as passagens de ônibus para treinos e jogos. O João tirou dinheiro do bolso algumas vezes para ajudar a pagar a condução de uma ou outra menina cujos pais não tinham condição financeira para arcar com essa despesa. O Clube Banespa priorizava o investimento no masculino e não tinha meios de investir no feminino e aos poucos algumas meninas foram desistindo da prática do vôlei. 

 

Dali em diante 

          As equipes femininas receberam então um convite para levar o grupo para o Esporte Clube São Caetano e para lá fomos em 1979.  

          A partir daí, João seguiu uma carreira de sucesso no Voleibol. Ele foi ficando cada vez mais calmo nos treinos e jogos e sempre lembrado com carinho por todas as atletas e técnicos. Com muitos títulos brasileiros e sul americanos, dirigiu muitas seleções Paulistas e Brasileiras infanto-juvenis e juvenis, e ajudou a formar várias de nossas principais atletas como: Ana Moser, Fernanda Venturini, Fofão, Carol Gattaz (entre muitas).

          Seguiu por diversos clubes e seleções, com muitos títulos brasileiros e sul americanos. Ao longo do tempo, algumas oportunidades surgiram, porém, se isso significasse abrir mão de princípios éticos e morais, não foram aceitas. A carreira de técnico seguiu por importantes clubes como Paulistano, Pão de Açucar Esporte Clube, Minas Tênis Clube, Associação Desportiva Hering, passou por Blumenau onde, com muito orgulho, fundamos o Bluvolei, e de onde saímos em 1997. Depois de uma breve passagem pelo clube Círculo Militar em São Paulo, e de uma volta ao São Caetano, foi encerrada a carreira de técnico para dar continuidade à carreira de professor universitário e de instrutor da CONAT (Comissão Nacional de Treinadores da CBV), cargo que o João ocupa até o momento, e onde passaram e se formaram muitos treinadores de sucesso. 

         

          Tendo constatado em cursos e conversas que poucas pessoas conheciam esses fatos, e infelizmente em meio a tantos casos de racismo no esporte noticiados ainda hoje, decidi fazer esta publicação em homenagem a um profissional que, como poucos, sempre se colocou na posição de educador e cidadão acima de seus próprios interesses.