Na Pandemia, vamos “jogar voleibol”!  (29/06/2020)

 

 

Com a suspensão das competições e os treinamentos das equipes de voleibol, forçada pela pandemia, os questionamentos  que mais encontramos nas lives, redes sociais e-mails, etc, referem-se a indicações de atividades que os atletas devem fazer em suas residências, para, ao serem liberados os retornos das atividades junto aos seus colegas, estarem o mais próximo possível de uma condição atlética adequada.

 

Recentemente em uma live que contou com a participação dos preparadores físicos das seleções brasileiras, o vitorioso e competente Professor Dr. José Elias de Proença valorizou as atividades físicas feitas pelos atletas em suas casas, mas alertou que por mais que se exercitem, haverá perdas. Segundo ele, as perdas físicas podem ser minimizadas durante a ocorrência da pandemia, mas as perdas motoras serão muito maiores. A falta do jogar, do praticar com a bola, do competir, trarão um destreinamento na execução das habilidades motoras do voleibol, das tomadas de decisão, ritmo de jogo e estado de prontidão para competir.

 

Mas as dúvidas permanecem, ou seja, o que deve ser treinado em casa para que as perdas motoras também sejam diminuídas? A nossa sugestão: “jogar”, “competir em casa”, “participar de disputas, mesmo no isolamento”. Mas como? Então vejamos!

 

Para tentar encontrar uma sugestão para as questões acima colocadas, nos socorremos dos ensinamentos de Robert S. Weinberg e Daniel Gould, que são PhD em Educação Física e Esporte e Cinesiologia, respectivamente. Também são professores de Psicologia do Esporte. Encontramos então uma possível utilidade para o nosso caso, a mentalização (ou treinamento mental).

 

“A mentalização é, na verdade, uma forma de simulação. É semelhante a uma experiência sensorial real (ex: ver, sentir, ouvir), mas toda experiência ocorre na mente”. “Esses termos referem-se à criação ou à recriação de uma experiência na mente”. “O processo consiste em recuperar da memória, fragmentos de informação armazenados de experiências passadas e moldá-los em imagens significativas”.

 

Para os autores aqui citados, a mentalização deve utilizar o maior número possível de sentidos. Ao “visualizar uma ação”, os sentidos cinestésico, auditivo, tátil, olfativo, são importantes. Para os atletas o cinestésico é determinante, pois evolve sensações de seus corpos nas diferentes movimentações e ações, o que serve para a melhoria do desempenho.

 

Cabe colocar aqui as conclusões de Pavel (1985), citado pelos autores de referência neste ensaio, que apontam duas funções da mentalização: a Motivadora e a Cognitiva. A primeira utilizada frequentemente para aumentar a confiança e a determinação dos atletas para competir, enquanto a segunda é utilizada na execução das habilidades motoras específicas da modalidade praticada.

 

A função cognitiva nos é mais pertinente nesse momento, pois ela leva o atleta a tentar sentir a “sensação do movimento” para melhorar seu nível de habilidade. Essa função nos faz lembrar da teoria Psiconeuromuscular, que sugere que o processo de mentalização, realizado com boa nitidez, produz padrões de atividade neuromuscular semelhantes àqueles ativados na execução real do movimento (Weinberg e Gould, 2008).

 

Imagine então, um jogador de voleibol visualizando um vídeo de um jogo em que tenha participado. Ao visualizar-se em ação o nosso atleta poderia imaginar-se novamente vivenciando aquele lance. Seria ele capaz de, ao mentalizar, reproduzir sua intervenção com nitidez? Acreditamos que se for possível repassar mentalmente o “filme” dos lances trazendo luz aos sentidos cinestésico, auditivo, e tátil, a mentalização cognitiva se faria presente, permitindo a cada jogador diminuir a perda motora. A mentalização deve ser realizada, se possível, na velocidade real do jogo, e não em câmera lenta, por exemplo.

 

Seriam, nossos atletas capazes de reproduzir com nitidez:

- A visualização da quadra, da rede, da bola se deslocando, os atletas adversários se movimentando, bem como seus parceiros de time no desenrolar de cada lance?

 

- Os barulhos dos diversos contatos com a bola, o barulho e a sensação do atrito dos tênis no chão, a vibração dos torcedores, os gritos dos atletas e treinadores! As vibrações a cada ponto conquistado e os incentivos após cada rali perdido? Sentir novamente a pulsação alterada, a perseverança e raça ali empregada? O suor correndo no corpo?

- Tomar novamente as mesmas soluções técnicas e táticas? Recordar por que foram tomadas? Refazer o raciocínio que esteve presente a cada uma das ações?

 

Outra técnica poderia ser agregada: seria o atleta assistindo ao vídeo de um jogo seu e pausar o vídeo antes de sua ação, tomar uma decisão sobre o que deveria fazer, comparar com a decisão tomada no momento, refletir sobre as razões e consequências da sua decisão.

 

Todas essas mentalizações com certeza ajudariam a ter perdas motoras menos significativas no isolamento que nos é imposto neste momento. Para incluir os fatores presentes na cena real, é recomendado que as gravações contenham o som ambiente. Quando os atletas forem realizar futuras mentalizações ficará mais fácil trazer os lances para a cena real do jogo.

Aproveitamos também para sugerir aos treinadores que acreditam nas recomendações aqui expostas, que realizem encontros virtuais para trabalhar a mentalização coletiva com sua equipe, discutindo sobre os lances executados e sugerindo outras soluções possíveis. Vídeos de jogos, treinos e preleções, com todos do grupo participando também podem manter a equipe toda “conectada”.

Àqueles que pretendem um aprofundamento maior sobre o assunto recomendamos a leitura do capítulo 13 do livro:

Fundamentos da Psicologia da Esporte e do Exercício

Robert S. Weinberg e Daniel Gould

Editora Artmed