Adaptações na recepção em função da imprevisibilidade do saque

 

 

 

Nas disputas atuais do voleibol de alto nível, é inegável a importância da boa utilização do saque como forma de impedir o sucesso dos sideouts das equipes adversárias.

 

Nos últimos tempos, o aumento da potência dos saques, tem acompanhado o aumento da estatura dos atletas e a evolução da preparação física, técnica e tática. Os sacadores pegam a bola cada vez mais alto e com mais força rápida. A constante utilização do saque potente teve como resposta, uma adaptação da capacidade de recepção a ele, por parte dos atletas responsáveis. Como o nosso esporte está em constante evolução, passou-se, então, a utilizar uma maior variedade de saques, para criar dificuldades para as linhas de passe adversárias.

 

É comum vermos o saque viagem, com velocidade ou fraco, buscando a zona de ataque da equipe adversária. O saque flutuante também passou ser bastante utilizado: veloz, visando o fundo da quadra, ou sem força, morrendo antes do posicionamento da linha de recepção, ou curto na zona de ataque. Por incrível que possa parecer, já se vê atletas sacando “chapado”, fazendo com que a bola, ao passar rente ao bordo superior da rede, tenha grande chance de raspar nela, caindo junto à rede no lado adversário.

 

Para criar mais surpresas à recepção adversária, foi criado o saque híbrido, onde o atleta lança a bola e salta como se fosse realizar um saque viagem com rotação, mas no último instante realiza o flutuante. O contrário também tem sido utilizado, com lançamento da bola e salto do saque flutuante, e aplicando um viagem com rotação.

 

Outra novidade é o saque com finta de gesto, ou seja, o atleta salta de frente para uma posição da quadra adversária, e mudando a direção do movimento do braço, saca para outra posição (ex: sobe de frente para a posição 5 da quadra adversária e direciona o saque para a 1). Outra estratégia utilizada em nossos dias é a alternância de posição do fundo da quadra em que cada atleta se posiciona para sacar. É também observado atualmente, que mesmo sacando com violência, muitos atletas conseguem direcionar os saques com eficiência.

 

Na partida disputada entre Brasil e Itália na VNL (03/07/2023), a equipe brasileira fez três pontos de saque, enquanto a italiana conseguiu quatorze. Ficou nítido que o nosso time priorizou o saque com potência, enquanto seu adversário valorizou muito as variações.

 

Como a seleção norte-americana feminina já havia mostrado na Olimpíada de Tóquio, a tendência é criar imprevisibilidade para o adversário ao se sacar. É importante lembrarmos que as equipes entram em todas as partidas tendo estudado exaustivamente as características dos seus adversários, graças aos vídeos que são inúmeras vezes mostrados e destrinchados. Fica claro portanto, que uma equipe que possua atletas que dominem várias técnicas de saque, e com competência para variar suas estratégias, terá mais chances de surpreender as linhas de recepção adversárias.

 

Sabe-se também que se uma equipe só treina e utiliza basicamente um tipo de saque, terá dificuldades para recepcionar saques diferentes daquele que mais utiliza. Os seus atletas, ao treinarem entre si, vão aumentando sua capacidade de passar aquele tipo de saque, mas muito provavelmente terão dificuldades com os outros modelos.

 

A eficácia de saques evoluiu muito, entretanto, ainda falta muito para que se atinja a regularidade, principalmente após uma solicitação de tempo pela equipe adversária, e nos finais dos sets e partidas, em momentos decisivos. Parece que a responsabilidade de se sacar nesses momentos faz com que os atletas percam a confiança e a capacidade de encontrar a melhor estratégia para aquele instante. Nessas horas os erros ainda são muito comuns. Talvez uma melhoria da condição psicológica e o treinamento em situações de pressão possam melhorar esse aspecto. Claro que orientações adequadas dos treinadores, à beira da quadra, também auxiliam bastante.

 

O saque foi durante muito tempo classificado como uma habilidade motora fechada. Com a utilização crescente das técnicas para a sua execução com salto, ela se torna menos fechada e mais aberta. Nem sempre o sacador consegue um lançamento preciso e tem que fazer ajustes no salto para ter sucesso. Muitas vezes os ajustes ocorrem quando da realização das variações do saque híbrido e aquele com finta de gestos.

 

Impulsão, potência de toda a musculatura do corpo, coordenação viso-motora, equilíbrios (estático, dinâmico e recuperado), força de perna para amortecer a queda, capacidade de organização e complexidade, devem ser bem treinados para que o treinamento técnico e tático do saque surta bons efeitos.

 

Se a qualidade dos saques tem melhorado muito, a capacidade de se contrapor a isso tem sido uma preocupação crescente por parte das grandes equipes. Afinal, permitir que o adversário conquiste o ponto no rali em tenha sacado, é ir contra a natureza das disputas do jogo, pois no voleibol, o ataque tem uma superioridade significativa sobre a defesa. Não ter sucesso nos sideouts é aumentar, em muito, as chances de derrota de uma equipe.

 

Ao preparar a recepção de saque de uma equipe para enfrentar a imprevisibilidade criada por sacadores adversários, não se pode treinar utilizando-se apenas um tipo de saque, mas sim todos aqueles que hoje são mais comuns nas partidas.

A capacitação deve ser obtida obedecendo-se os caminhos indicados pela metodologia do treinamento. O treinamento técnico para se obter a capacidade de recepcionar cada um dos diferentes tipos de saque é um bom início, mas está longe de deixar os atletas prontos para serem bem-sucedidos na missão de receber bem as variações deles, que ocorrem nas partidas.

 

Como nos tempos atuais, o sacador não mostra antecipadamente a estratégia que pretende adotar, cabe ao receptor ter a capacidade de leitura, ao analisar o gesto do oponente. Desencadeia-se então a antecipação e a tomada decisão sobre o que fazer e como fazer: análise da trajetória da bola, deslocamento necessário, velocidade de aceleração adequada para se posicionar bem e a tempo, posicionamento adequado, a utilização da técnica mais viável e o envio da bola para o local esperado, bem como com a trajetória desejada.

 

Para que se obtenha boas performances na recepção, o treinamento deve contemplar, depois da aquisição das técnicas adequadas para cada tipo de saque, variações aleatórias dos mesmos, como forma de criar dúvidas no atleta que os recebe, pois somente assim se desenvolverá a capacidade de tomadas de decisões, como a descrita acima.

 

Força de partida, velocidade de aceleração e os equilíbrios, trabalhados na preparação física com especificidades, tornarão os atletas mais competentes para executar todas as ações necessárias para uma recepção precisa. Concentração, autoconfiança, resiliência e o reconhecimento da estratégia estabelecida para o sideout em questão, devem fazer parte da preparação psicológica desenvolvida não apenas por profissionais dessa área, mas principalmente pelos treinadores, ao proporem treinos técnicos e táticos que exijam soluções aos mecanismos de pressão semelhantes aos que serão encontrados nas partidas. Ao ser aplicado um exercício deve-se, portanto, inserir adaptações às exigências de tempo, de precisão, de organização, de complexidade, variabilidade e cargas psíquica e física. Tudo com as especificidades próprias às possíveis variações que os adversários poderão criar, para as suas formações para a recepção de saques.

 

Tem se tornado recorrente, por parte dos clubes e seleções, a utilização do canhão de saques - máquina que dispara bolas, substituindo um sacador. Por mais que a regulagem do aparelho permita a escolha do tipo de trajetória, seu uso será útil apenas para o treinamento técnico da recepção, pois não propiciara a visualização real do gesto de um atleta sacando, que é o que permite a leitura e a consequente tomada de decisão dos passadores. O desenvolvimento da tática individual, e consequentemente da coletiva, relativas à recepção, estarão prejudicadas com o uso exclusivo do canhão.

 

O aumento da potência dos saques, acompanhado de variações técnicas e estratégicas, tem mostrado que as exigências técnicas, táticas, físicas e mentais das ações necessárias para a recepção de saque, se aproximam cada vez mais daquelas exigidas aos fundamentos de defesa. Não é incomum, por exemplo, atletas realizarem mergulhos ou rolamentos para realizarem um passe, coisa raríssima há algum tempo. 

 

A imprevisibilidade procurada pelos sacadores do voleibol atual trouxe adaptações também na tática coletiva do jogo. Em uma mesma partida se nota mudanças no posicionamento da linha de passe de uma mesma equipe. Ora mais perto zona de ataque, ora mais perto da linha de fundo, às vezes mais aberta, depois mais fechada.

 

Jogadores que até pouco tempo atrás não passavam, hoje têm as suas responsabilidades na recepção. É o caso dos centrais que passam o saque curto e os opostos que muitas vezes são solicitados para compor uma linha de quatro passadores para fazer frente aos saques imprevisíveis dos adversários. Foi-se o tempo em que o oposto não precisava saber realizar manchete. Talvez, em breve, tenhamos a volta do jogador universal, como nas velhas montagens do sistema de ataque 5x1. As equipes, sempre que podem, modificam as configurações de suas linhas de passe, para trazer insegurança aos sacadores oponentes.

 

Mas a mais surpreendente das inovações das táticas para a recepção de saque é a participação dos levantadores! Quem diria! Os levantadores participando da linha de passe! Ao se posicionarem para o sideout de suas equipes, alguns levantadores não se posicionam junto à rede para receber os passes para prepararem os ataques de seus companheiros. Antes da bola sacada cruzar a rede, eles ficam na zona de ataque, a uma distância de aproximadamente dois metros da rede, para recepcionarem aquelas que tocam nela e caiam próximos a si. Quando isso ocorre o levantamento é feito pelo líbero. Quando percebem que ela não raspará no bordo da rede se deslocam para o ponto adequado para atuar, junto a rede. Ou mesmo em saques curtos, menos potentes, alguns já recepcionam o saque e têm arriscado um levantamento de segunda bola.

 

Este estudo procurou mostrar o quanto o voleibol é dinâmico e o quanto os treinadores precisam ser atentos e estudiosos para inovar e encontrar soluções para se contrapor às novidades criadas por outros técnicos, tão atentos e estudiosos como ele. Também foi intenção deste trabalho, mostrar que por mais que os vídeos tentem preparar os atletas, antes das partidas, para que as possíveis imprevisibilidades buscadas pelos adversários sejam minimizadas, isso somente será realmente obtido com aumento da capacidade das tomadas de decisões dos jogadores. Portanto cabe a nós, treinadores, nos preocuparmos em propor sempre aos atletas, atividades que exijam desafios e uma boa relação entre cognição e ação. 

 

Ao ler este nosso estudo, faça uma análise dos seus conteúdos e nos envie as suas sugestões para que todos nós possamos continuar a aprender sempre.

Grande abraço