Considerações sobre o bloqueio da equipe feminina do Brasil na VNL 2023
Ao assistir aos jogos da seleção feminina do Brasil na VNL 2023, chamou-nos a atenção que o bloqueio da equipe talvez tivesse apresentado pouca eficiência nesse torneio. Como consequência disso, foi possível observar as dificuldades do sistema defensivo como um todo, que tem por referência, o bloqueio.
Em vista disso, procuramos analisar os dados apresentados pela Federação Internacional de Voleibol (FIVB) e tentar entender um pouco mais sobre a performance do bloqueio da equipe brasileira feminina.
Vale lembrar que os estudos a seguir baseiam-se totalmente nas estatísticas apresentadas no site da FIVB (www.fivb.org), assumindo os dados divulgados como confiáveis.
As análises aqui presentes apontam linhas gerais pois, embora se saiba quantos jogos cada equipe jogou, não é possível analisar de quantos sets cada atleta participou e por quantos pontos, portanto a análise considera os jogos como um todo.
O propósito deste estudo não é de forma nenhuma criticar individualmente as atletas nem a comissão técnica, e sim, provocar reflexões sobre a possível necessidade de um maior cuidado por parte dos profissionais que formam essas atletas.
Para cálculos estatísticos utilizamos o programa IBM SPSS Statistics (versão 29.0).
O bloqueio é um dos fundamentos do voleibol mais difíceis de ser executado, senão o mais difícil. Assim como todos os outros fundamentos, depende do aspecto físico como estatura, envergadura, domínio da técnica ou técnicas de execução, e depende de um conjunto de capacidades físicas e coordenativas, que devem ser muito bem trabalhadas.
Depende também de um componente cognitivo, experiência do(a) atleta para decifrar a leitura da jogada de ataque do adversário, com um tempo muito curto para a tomada de decisão. Também interfere nas ações de cada atleta, se irá realizar um bloqueio simples ou participará de bloqueios coletivos (duplo ou tripo). Portanto, o mais importante para a eficácia do bloqueador, é ter uma tática individual apuradíssima, ao realizar este fundamento.
Quando observamos o movimento de bloqueio de determinadas atletas durante o jogo, é nítida a preocupação em fazer o bloqueio o mais alto possível, muitas vezes, em detrimento de um melhor posicionamento dos braços e das mãos.
Os braços deveriam estar mais próximos, ou mais distantes da rede adequando-se a distância e à altura da bola a ser batida pelo atacante adversário. Eles devem estar estendidos ao máximo, e as mãos posicionadas de modo a tentar devolver a bola para a quadra do adversário, ou tentando tocar a bola para facilitar a defesa. Como os braços dos bloqueadores devem estar estendidos, o alcance correto de cada uma de suas ações bloqueio será determinado pela impulsão proporcional à altura da bola a ser atacada.
O bloqueador de extremidade não deve permitir que a sua mão de fora seja utilizada pelos atacantes adversários para obtenção de pontos, com o objetivo de explorar o bloqueio. Para tanto, as mãos deste bloqueador devem estar posicionadas adequadamente: paralelas à rede, seguidas de uma complementação com flexão dos punhos com giro em direção a parte central da quadra. Há treinadores que orientam seus bloqueadores posicionem a mão de fora já virada para dentro da quadra, buscando o mesmo efeito.
As mãos, via de regra, não devem estar separadas demais, a ponto de permitir a passagem da bola por entre as elas. Atualmente alguns atletas usam como estratégia, o bloqueio com o afastamento das mãos, tentando surpreender os(as) atacantes que decidem fugir do bloqueio pela esquerda ou pela direita – mais uma decisão que o bloqueador deve tomar, principalmente os centrais. No entanto, se não for muito bem treinado, esse tipo de recurso pode comprometer o sistema defensivo, que se organiza em função do posicionamento do bloqueio.
É necessário um extremo cuidado na iniciação ao voleibol, certificando-se que a atleta aprenda (antes de tentar alçar mais altura com um lançamento de braços pela lateral), a execução da técnica correta com deslocamentos simples e posicionamento correto de mãos e braços para cada situação do ataque, mais perto ou mais longe da rede, adequando-se ao tempo correto (um dos elementos mais difíceis do bloqueio), e além disso, saber posicionar-se corretamente de acordo com ataque do adversário (a), subindo em frente à bola, ou mais à esquerda ou mais à direita. Os ajustes coordenativos precisam ser trabalhados com muita atenção
Bons processos de iniciação e de aperfeiçoamento do bloqueio, permitirão que os atletas, ao terem definidas as suas funções táticas, façam os ajustes técnicos e táticos que elas exigirão na realização deste fundamento, no voleibol de alto nível. Isso para lembrar que os Centrais têm exigências técnicas e táticas bem diferentes daquelas demandadas aos jogadores de extremidades.
É óbvio que não vai acontecer um bloqueio perfeito em todas as tentativas, no entanto, pode-se observar inúmeros erros de posicionamento de mãos e braços, assim como erros de marcação da bola que favorecem o ataque adversário e desestruturam toda a defesa.
Observa-se na tabela 1 os valores de pontos de bloqueio por posição e por país, entre os 8 primeiros colocados na competição (VNL 2023).
Classificação na VNL (2023)
1º lugar Turquia
2º lugar China
3º lugar Polônia
4º lugar USA
5º lugar Brasil
6º lugar Itália
7º lugar Japão
8º lugar Alemanha
Tabela 1 – Total de pontos de bloqueio de acordo com cada país e cada posição entre os 8 primeiros colocados na competição.
É possível notar nos valores acima, que Turquia, Polônia, USA e Itália apresentaram uma maior pontuação, enquanto Brasil, China, Alemanha e Japão estiveram bem abaixo.
Chama a atenção nessa tabela, o baixo valor de pontuação no bloqueio das nossas ponteiras, que estão numa posição decisiva, pois devem bloquear as principais atacantes adversárias (opostas).
No ranking de pontos de bloqueio entre as diferentes posições de jogo (excluindo-se as líberos), levando-se em conta apenas os resultados dos 8 primeiros colocados, nossas centrais ficaram na 4ª posição, as levantadoras na 6ª posição, as opostas na 6ª posição e as ponteiras na 7ª posição.
Podemos observar na Tabela 2 as médias de estatura das 8 primeiras colocadas por posição de jogo.
Tabela 2 - Médias estatura em cm por posição de jogo.
Como é possível verificar por meio de uma análise de correlação, via de regra, não é necessariamente a atleta mais alta que bloqueia melhor. A altura de alcance de bloqueio teria uma melhor associação com os resultados em pontos de bloqueio, porém só dispúnhamos de dados da estatura das atletas.
Temos o exemplo em nossa seleção que é a Carol, nossa melhor bloqueadora, que não é a mais alta.
Excluindo-se as líberos, a correlação entre pontos de bloqueio e estatura foi de 0,324** e entre ataques amortecidos foi de 0,189**, portanto, correlações bem baixas (correlações significativas a p<0,001**).
(A análise de correlação mede o nível de associação entre variáveis. Uma correlação de 1,0 significa uma perfeita associação e de 0, que não existe associação alguma. Se os resultados encontrados numa análise de correlação forem entre 0 e 0,3, essa associação é nula ou quase nula. Valores entre 0,3 e 0,5 representam uma associação fraca entre as variáveis. Valores entre 0,5 e 0,7 significam uma correlação moderada e acima desses valores a correlação é forte).
Um melhor resultado no bloqueio, está relacionado também a um melhor saque, pois este irá dificultar o ataque adversário no sideout. Como a informação disponível é limitada, só foi possível calcular a correlação entre pontos de saque e de bloqueio, supondo que a equipe que apresentou maior número de pontos de saque também apresentou saques efetivos no sentido de dificultar o ataque adversário facilitando assim o bloqueio. A correlação entre pontos de saque e pontos de bloqueio foi de 0,558** ( p<0,001), indicando que sim, existe uma relação entre esses fundamentos.
Na tabela 3 constam os valores do ranking geral da competição no bloqueio, das atletas brasileiras que participaram, apresentadas por posição de jogo.
Tabela 3 – Ranking geral das atletas brasileiras participantes da VNL 2023.
Embora com limitações no que se refere aos dados analisados, foi possível notar que o Bloqueio do Brasil apresentou problemas nessa competição na comparação com equipes de outros países e que precisamos investigar mais a fundo o que é possível fazer para melhorar esses valores e acima de tudo voltar nossa atenção à formação de novas atletas.