A interdependência entre os aspectos metabólicos e neurais na prática do voleibol (06/05/20)
O voleibol é um esporte de prática intermitente, uma vez que é constituído de momentos ativos (ralis, onde se disputam os pontos) e momentos de interrupção (pausas para que um novo rali ou set sejam organizados). Essa intermitência é totalmente circunstancial, pois não se pode determinar antes que um rali ocorra, qual é a sua carga de atividade (volume e intensidade). O volume (duração) dos ralis é aleatório. As disputas de cada ponto podem ser bem curtas, como num erro de saque, por exemplo, mas podem ser muito longas, quando apresentam sequências de contra-ataques alternadas, por parte das equipes. É sabido, no entanto, que a média de duração dos ralis é de 4 a 6 segundos no voleibol adulto masculino, enquanto no feminino ela é de 7 a 9 segundos.
Isso determina que durante as disputas de cada ponto, caracterizadas por ações de altíssima intensidade, o sistema energético mais solicitado seja o anaeróbio alático (ATP-CP). Já as pausas entre os ralis, duram em média 22 segundos. Elas são classificadas em normais - entre os ralis - ou excepcionais - que ocorrem para substituições, tempos técnicos ou para descanso, enxugar a quadra, contusões, intervalos entre os sets, etc. Temos então que a densidade da carga da prática do voleibol é de 1 para 3, ou seja, os ralis são intercalados por pausas que são, em média, três vezes mais longas. Fox e Keteyian (2000) nos lembram que o sistema ATP-CP depletado durante um exercício anaeróbio alático, é ressintetizado, após esforço, pela atuação direta do sistema aeróbio.
Fica claro então que o voleibol, na sua parte ativa, conta com a predominância do sistema anaeróbio alático, e tem atuação importantíssima do sistema oxidativo nas pausas. Essa dinâmica permite que o atleta de voleibol permaneça em atividade por um período prolongado, desde que ele esteja bem condicionado nos dois sistemas de ressíntese de ATP. Arruda e Hespanhol (2008) apontam a importância da Potência do sistema ATP-CP para os lances de maior intensidade, a da Capacidade desse sistema para os ralis de maior duração, e do sistema aeróbio como o contribuidor para a ressíntese da energia gasta nos ralis. Conclui-se, portanto, que para que um atleta possa disputar toda uma partida de voleibol de alto nível, ele necessita ter os sistemas anaeróbio alático e o aeróbio bem treinados. Isso demanda tempo e especificidade, tanto em relação à modalidade, quanto às diferentes faixas etárias.
Se para jogar voleibol de alto nível, a resistência, representada pelos metabolismos aeróbio e anaeróbio alático é fundamental, as demais capacidades condicionantes igualmente o são. Portanto os aspectos neurais da prática do voleibol também merecem atenção.
Arruda e Hespanhol (2008) apontam a força como base para os saltos e deslocamentos inerentes ao voleibol e destacam a força máxima, a força explosiva, a explosiva elástica e a elástica reflexa, como aquelas que devem ser mais desenvolvidas neste esporte.
Quanto à velocidade, os referidos autores valorizam a de ação, a de deslocamento e a acíclica, bem como a agilidade.
Um jogador de voleibol não necessita ser tão flexível quanto uma atleta de ginástica rítmica, mas necessita que a flexibilidade seja desenvolvida dentro de um caráter funcional, de maneira a permitir a boa amplitude articular nas execuções das habilidades motoras, diminuindo assim o risco de aparecimento de lesões, e permitindo ações com amplitudes adequadas para cada situação do jogo.
Depois dessa rápida análise das características metabólicas e neurais da prática do voleibol, acreditamos ser importante apontar com que ênfase, cada um dos fatores envolvidos, deve ser considerado para efeito de treinamento.
Para tal consideração, recorremos aos seguintes parâmetros de utilização das capacidades metabólicas:
Capacidade Física Predominante: a capacidade mais utilizada na prática de uma atividade motora.
Capacidade Física Determinante: a capacidade que uma vez bem desenvolvida, permitirá que as execuções das habilidades motoras específicas da modalidade esportiva sejam realizadas com qualidade.
Capacidade Física de Apoio: capacidade que deve ser treinada para otimizar (servir de alicerce) o treinamento das capacidades determinantes.
Considerando as análises das características do voleibol feitas anteriormente, e utilizando-as para determinar a real função das diferentes capacidades físicas específicas da modalidade, temos, em termos metabólicos:
Capacidade Determinante: sistema anaeróbio alático
Capacidade Predominante: sistema aeróbio
Capacidade de apoio: sistema aeróbio
Apenas essas divisões ainda não determinam a especificidade com relação às características de utilização de cada tipo de capacidade. É imprescindível levar em conta: potência, capacidade e eficiência energéticas, que são decorrentes da intensidade com que cada sistema de energia é utilizado, em cada intervenção atlética.
- Potência energética: energia na unidade de tempo: reflete mais a intensidade da carga do trabalho, com qual velocidade a energia é consumida.
- Capacidade energética: energia ao longo do tempo: reflete mais o volume da carga do
trabalho. Diz respeito às reservas energéticas disponíveis.
- Eficiência energética: perfeita relação entre potência e capacidade energéticas, de forma que o atleta possa empregar suas reservas, otimizando a intensidade empregada e utilizar seu potencial técnico-tático máximo, durante toda a partida.
Para sintetizar essa reflexão sobre as exigências energéticas para a prática do voleibol de alto padrão, temos então que a potência anaeróbia alática será determinante durante os ralis. Já o sistema aeróbio funciona como capacidade de apoio, ou seja, a potência aeróbia propiciará, durante cada pausa, uma recuperação rápida da energia gasta em cada rali, e a capacidade aeróbia propiciará a ressíntese energética ao longo do jogo. Para que o atleta seja eficiente energeticamente, e possa atuar com eficácia em suas tomadas de decisão e ações motoras, do início ao fim de cada partida, há a necessidade de que a adequação de seu ritmo de atuação seja determinada pela comissão técnica de sua equipe, baseada em avaliações para tal fim. Claro que essas definições serão fundamentadas em considerações táticas e planos de jogo. Assuntos que abordaremos em estudos próximos.
Considerando que as pausas entre as ações do voleibol são, em média, três vezes mais duradouras que os ralis, em uma densidade de ações 1 para 3, o sistema aeróbio, que é o de apoio, é acionado em um volume bem superior ao ATP-CP que é o determinante, fazendo do sistema oxidativo, o predominante e o mais utilizado na prática do voleibol.
É evidente que os gastos energéticos que ocorrem nas ações do voleibol são estimulados pelas ações musculares que permitem suas execuções. Isso porque todas as habilidades motoras são resultantes das relações neuromusculares desencadeadas pelos atletas, em cada uma de suas intervenções no jogo.
Por quais razões o sistema ATP-CP é determinante, nas ações no voleibol? Como foi visto anteriormente, as intervenções em nosso esporte são rapidíssimas e dependentes de muita explosão muscular, ou seja, de muita intensidade. Isso nos leva a concluir que durante os ralis a força rápida (explosiva) seja a capacidade neural determinante pois, quando bem treinada, mais energia será utilizada pelo atleta para obtenção de sucesso em suas ações de alta intensidade. Como as ações do voleibol são rapidíssimas, elas serão dependentes da força explosiva, que por sua vez, deverá ser embasada pela força máxima. Intensidade também é sinônimo de consumo energético (Gambetta, 2005)!
Se a força explosiva é a determinante para a prática do voleibol, a força máxima será a de apoio. A treinabilidade da primeira estará condicionada pelos padrões da segunda. Quanto maior a força máxima, mais elevado será o número de unidades motoras que poderão ser estimuladas e colocadas à serviço das ações explosivas. Isso traz uma especificidade muito grande à prática do voleibol, pois a força máxima é uma atividade com características muito mais neurais do que metabólicas. O nosso atleta tem que ser forte e rápido, não pesado e lento, como seria de treinasse força hipertrófica. A transmissão nervosa de alta frequência da força máxima, potencializa a força rápida.
Durante as pausas entres os ralis e sets não ocorrem ações específicas, portanto o trabalho muscular deve servir como facilitador da recuperação energética.
A interdependência entre os fatores neurais e metabólicos, inerentes às especificidades da intermitência da prática do voleibol, indica que a força explosiva é determinante para as ações do voleibol que são de alta intensidade. Esse fator reflete também a presença decisiva do sistema anaeróbio alático que deverá contar com o apoio, nas pausas, do sistema aeróbio.
Resumindo: durante uma partida, enquanto o sistema aeróbio conseguir recompor o sistema ATP-CP, o jogador de voleibol terá energia para que suas ações tenham qualidade. Portanto para bem planejar e periodizar há a necessidade de serem definidas as capacidades determinantes, predominantes e de apoio a serem desenvolvidas. Tanto as de aspectos neurais quanto as de características metabólicas.
Em textos próximos abordaremos os aspectos cognitivos e coordenativos inerentes à prática do voleibol. A tática individual, característica tão marcante no voleibol bem jogado, vai ser contemplada com um estudo próprio.
Como consequência das análises feitas até aqui, coloco uma questão, que para ser satisfeita vou necessitar da participação daqueles que, ao lerem esse estudo, se interessem em dar as suas parcelas de contribuição:
“Ao planejar ou periodizar um treinamento, para uma equipe adulta de voleibol, é mais correto se dizer que no período Preparatório Básico (Geral, ou de Acumulação) devemos trabalhar as capacidades físicas gerais, enquanto no Período Preparatório Específico (especial ou de Transformação) as capacidades específicas dele?”
“Ou talvez fosse mais adequado ser sugerido: no período preparatório básico devemos potencializar as capacidades físicas de apoio e no específico, aquelas que sejam as determinantes para prática do voleibol? ”E nos Períodos Competitivos?
Portanto, vamos deixar combinado: em função das contribuições dos interessados, vamos, em um novo estudo, responder as questões postas. Para tal, vamos levar em consideração as sugestões e estudos que forem enviados, relacionando-as com o que diz a literatura especializada. Será uma forma de atender um dos principais objetivos da Academia do Voleibol: contemplar a capacitação dos que amam e estudam o nosso esporte!
Fico no aguardo e conto com todos. Abraços
Em tempo: para os amantes do assunto deste estudo sugiro o livro:
Athletic Development
The Art & Science of Functional Sports Conditioning
Vern Gambetta
Human Kinetics
www.HumanKinetics.com