Os caminhos que a Olimpíada de Tóquio mostrou para o Voleibol:
temos que nos reencontrar com as nossas origens
As participações das seleções brasileiras de voleibol de quadra nas Olimpíadas de Tóquio nos trouxeram uma surpresa negativa e outra positiva.
Vejamos:
A seleção masculina, que vinha de uma conquista, já esperada na Liga das Nações, chegou a Tóquio como a favorita à medalha de ouro, em virtude das grandes conquistas iniciadas no Rio de Janeiro em 2016. Mesmo com a participação de equipes como Polônia, bicampeã mundial; Rússia, campeã da liga das Nações em 2019; Itália, vice-campeã olímpica, dos espetaculares Zaytzev e Juantorena, dentre outros; França, de Ngapeth; USA, com sua versatilidade tática; além das outras equipes não tão prestigiadas como Canadá, Argentina, Japão, Irã e Tunísia, o Brasil foi considerado pela maioria dos especialistas como a equipe a ser batida.
Entretanto na fase de grupos não conseguimos enfrentar a equipe russa, que além de saque muito poderoso, responsável por facilitar seus bloqueios eficientes, nos surpreendeu com ataques muito rápidos tanto pelo centro como pelas extremidades da rede, mesmo com recepções com passe longe da rede (passe B ou C). Acabamos em segundo lugar.
Já nas quartas de final não tivemos maiores problemas com o time do Japão, pois conseguimos impor o nosso jogo através de um bom passe, ótimo bloqueio e ataques variados. Veio então a semifinal, em mais uma disputa contra a Rússia. Apesar de termos jogado melhor do que a partida da fase de grupos contra essa mesma seleção, mais uma vez não conseguimos enfrentar a maneira variada e eficiente de jogar dos adversários.
Fomos para uma inesperada disputa da medalha de bronze contra uma motivada Argentina. Claro que os nossos atletas não entregaram o jogo, mas foi nítido que a vontade de vencer dos argentinos mostrou-se determinante.
Voltamos sem nenhuma medalha! Claro que a Comissão técnica do Brasil, que é muito competente, saberá encontrar as razões desta derrota: a ausência do nosso treinador Renan Dal Zotto no período que antecedeu as olimpíadas, uma possível falha na periodização, além o fato de ser a equipe a ser batida, e por isso mesmo a mais estudada pelos adversários, são fatores que podem ter contribuído para a fraca campanha. Talvez encontremos outros fatores, como veremos ao final deste estudo! Temos, entretanto, a convicção de que assim como sabemos ganhar, também saberemos tirar proveito deste insucesso, e continuaremos como o melhor voleibol masculino do planeta.
Já a seleção feminina foi coroada com uma brilhante medalha de prata, contrariando todos os prognósticos. A China e a Sérvia, campeã e vice olímpicas de 2016, eram apontadas com francas favoritas à disputa do primeiro lugar. USA e Itália também gozavam das preferências dos especialistas, enquanto o Brasil era apontado como a quinta força, e talvez a quarta.
Portanto, para muitos, aquela final entre USA e Brasil na Liga das Nações só aconteceu porque China, Sérvia e Itália não haviam comparecido com suas forças máximas, já que haviam optado por investir aquele período em treinamentos para se apresentarem com forças máximas em Tóquio. Ledo engano!
A China se apresentou muito mal, com uma equipe renovada, que sequer obteve classificação entre as quatro do seu grupo. A Itália com suas atacantes muito fortes, se classificou em segundo lugar no grupo dos USA, mas não passou pelas quartas de final, quando foi presa fácil para a Sérvia, que por sua vez, por ser muito irregular, foi facilmente derrotada por 3X0 pelos USA, nas semifinais. Já o Brasil obteve o primeiro lugar de um grupo forte que continha três das quatro equipes semifinalistas: Brasil, Coreia e Sérvia. A seleção feminina manteve a regularidade nas etapas seguintes superando, sem problemas, primeiro a Rússia, depois a Coreia, habilitando-se para fazer, novamente, uma final contra os USA.
A nossa equipe feminina foi derrotada na final por 3X0 pelas americanas, mas conquistou um inesperado segundo lugar, fruto do bom trabalho realizado no processo de preparação realizado por uma Comissão Técnica competente e experiente.
Temos que comemorar muito essa conquista, e temos, entretanto, que fazer análises frias das razões que levaram a França, no masculino, e os USA no feminino, a conquistarem as “medalhas de ouro”, pois talvez dessa forma, nos reencontremos com as origens do voleibol brasileiro.
Não por acaso, a França masculina tem um Ngapeth e os USA feminino contam com uma Larson! As partidas finais dos torneios olímpicos, tanto dos rapazes quanto a das moças, mostraram nitidamente os caminhos que o voleibol de alto nível adotará nos próximos anos.
Quando se fala de tendências para o nosso esporte, muito se fala em estatura, preparação física e potência de golpes. Alguns citam a importância das técnicas para a realização dos fundamentos dos jogos e outros de soluções táticas coletivas inovadoras.
Realmente são fatores muito importantes para a boa prática do nosso esporte, mas o que Ngapeth e Larson, junto com seus companheiros mostraram, é que ser inteligente e rápido nas ações são fatores diferenciais para o sucesso!
Nos tempos atuais, os planos de jogos e as táticas para cada partida são determinados pelos levantamentos estatísticos, feitos por instrumentos sofisticados, que são estudados exaustivamente através de vídeos, que mostram as ações coletivas e individuais dos adversários. Os atletas são condicionados em suas ações por meio de muitas visualizações dos vídeos que reforçam as estatísticas, e por treinos que simulam as respostas mais adequadas para cada situação.
Em resposta à “automatização” resultante dessa estratégia de procedimentos atuais, as equipes campeãs de Tóquio trouxeram de volta, algo que era uma característica marcante do voleibol brasileiro: a IMPREVISIBILIDADE. Larson e Ngapeth ao atacarem, “esgrimiam”, encontrando soluções inovadoras e inesperadas deixando as formações defensivas inseguras em seus procedimentos.
O exemplo dado sobre os dois atletas diferenciados, em suas intervenções de ataque, foi utilizado para fazermos algumas reflexões decorrentes daquilo que essa olimpíada recém finda nos mostrou acerca dos fundamentos do jogo:
1. A utilização do saque potente mostrou-se de muita valia para complicar e tornar previsíveis as ações dos sideouts adversários. Mas as variações dos tipos de saques foram de maior valia. Nas equipes campeãs, além do “saque híbrido”, foi frequente o mesmo jogador variar o saque em sua potência; com ou sem rotação, além das zonas de partida e destino. Ficou claro que a tática era não permitir que as recepções de saques se adaptassem a um tipo de padronizado de saque. É a volta do saque inteligente e não só potente.
2. As saídas para o ataque (sideout) apresentaram alguma variação quanto ao ponto de levantamento. Na maioria das vezes o passe foi endereçado entre as posições 2 e 3, mas também foi utilizada a estratégia do levantamento partir do centro da rede ou mesmo no espaço compreendido entre as posições 3 e 4. Estas variações buscavam atrair o bloqueador central para um distanciamento maior em relação ao ataque dos seus opostos, que atacam, na maioria das vezes, nas posições 2 e 1. Mas a grande novidade foi a realização de ataques de com levantamentos velozes mesmo com passe distantes da rede: entre a linha central e a de ataque – “passe B” e perto da linha de ataque – “passe C”. Não foram raros levantamentos, realizados tanto para as extremidades como para o meio da rede com bolas chutadas para os centrais, mesmo com passes “ruins”. Foi possível observar que os atacantes procuravam sempre utilizar as mãos dos bloqueadores que, em virtude da velocidade dos levantamentos, muitas vezes não chegavam bem postados e equilibrados. Vimos atacantes com uma riqueza de golpes inovadora.
Quanto à recepção propriamente dita, a manchete foi destacadamente a técnica mais utilizada, em virtude da violência da maioria dos sacadores. Entretanto, com as variações apresentadas dos tipos de saques utilizados, os atletas responsáveis pelas recepções mostraram alta capacidade de antecipação, deslocamentos com muita aceleração e a utilização da manchete em movimento, o que exige muito equilíbrio dinâmico, além de uma técnica apuradíssima.
3. Em relação aos levantamentos, mais uma vez viu-se muita suspensão, a utilização de uma só mão, além do jogo em velocidade mesmo com passes B e C, principalmente para as posições 4 e 3. A reversão, ou seja, levantamentos na maior distância também foi muito contemplada. Os levantadores também procuraram criar surpresas para os adversários com largadas e ataques de segunda. A maioria dos levantadores também mostrou muita eficiência nas ações de bloqueio.
Também foi nítida a importância dos líberos, assim como os atacantes, serem competentes em levantamentos, inclusive com alguma capacidade de criatividade.
Esteve presente, com alguma frequência, uma tentativa de tornar mais breve a preparação de ações ofensivas, através de levantamentos com a primeira bola. Algumas seleções, principalmente a masculina do Brasil, ao receberem, “de graça” – Free ball - a bola vinda dos adversários, efetuavam levantamentos através do atleta que a recepcionava, em uma tentativa de surpreender os esquemas defensivos adversários. Nada ainda parecido com as estratégias de mesmo fim, utilizadas no voleibol de areia, onde isso comumente acontece. No voleibol de praia, essa tática ocorre não só nas bolas de graça, mas também em defesas que neutralizam cortadas. Mas, sem dúvida, é um novo caminho a ser considerado.
A elevada estatura dos levantadores(as) também foi uma preocupação das equipes olímpicas, não só para aumentar eficiências dos bloqueios, mas também para tornar mais eficientes as intervenções que visavam atrair as atenções dos bloqueios adversários e eficazes seus ataques de segunda bola.
4. Não raramente os atacantes, quando se viram frente a bloqueios previamente bem postados, utilizaram batidas com pouca força contra eles, para permitir que suas coberturas de ataque iniciassem a reconstrução de uma nova ação ofensiva. A aplicação dessa tática individual, além de ser de altíssimo nível, também reflete o grau de preparação das táticas coletivas das equipes.
5. As formações defensivas se caracterizaram por uma tentativa constante de uma boa relação entre as ações dos bloqueios com as de jogo de campo. Claro que como sempre, os saques eficazes sempre facilitaram tal entrosamento.
O semicírculo foi a formação defensiva mais utilizada, tanto com bloqueio simples como com os coletivos. Vimos todas as equipes partindo do posicionamento 3:2:1, mas com os laterais bem dentro da quadra.
O feminino apresentou uma meia proteção atrás dos bloqueios de extremidades, para que as atletas pudessem atuar tanto nas bolas largadas quanto nas atacadas nas paralelas. Já o masculino mostrou uma variação grande do posicionamento do defensor da posição 6, ora dentro da quadra e ora muito afastado, às vezes fora dela, dependendo da altura da bola e do distanciamento dela em relação à rede.
Não foram poucos os ralis acima de 20 ou 30 segundos! De forma que se viu muito volume de jogo e muita complexidade, resultados de muita defesa realizada em função de conhecimentos prévios dados pelos levantamentos estatísticos realizados antes e durante as partidas; mas também resultantes de táticas individuais de defesa, principalmente por parte dos líberos. Foram decisivas as leituras das intenções dos atacantes adversários, rápidas tomadas de decisões, muita velocidade nas ações, agilidade e movimentos acrobáticos, que tornaram as defesas menos estáticas e previsíveis.
6. Apesar da análise acima ter mostrado novidades em todos os fundamentos do jogo, acreditamos que foi no ataque que mais se viu os indicativos dos caminhos que a prática do voleibol adotará daqui para frente. Finalizações potentes, atacantes com alcances muito elevados, levantamentos velozes e ataques combinando as ações da “primeira bola com a segunda ou terceira” já vinham sendo uma tendência, mas ganharam um novo tempero: variações nas intenções e nas fintas de gestos.
Frequentemente os atacantes surpreendiam os defensores, com largadas e exploradas inesperadas. Fintas de gestos foram comuns no momento das finalizações, de forma torná-las menos previsíveis. A mescla constante de ataque potentes com os mais criativos mostrou que o enriquecimento dessa tática individual estimulará, obrigatoriamente, ainda mais a busca por respostas adequadas das ações defensivas.
Este novo caminho, ou seja, a disputa entre a imprevisibilidade cada vez maior das ações ofensivas com uma possível antecipação das defensivas se contrapondo, implicará em treinamentos que contemplem cada vez mais o desenvolvimento de uma ótima e rápida relação entre o pensamento convergente e o divergente.
Jogadores mais inteligentes, mais criativos deverão ser capazes de tomadas de decisões cada vez mais rápidas. A busca dessa capacitação trará consequências também no treinamento físico e no técnico, pois ninguém é veloz sem ser forte e que ninguém joga rápido com eficácia, sem possuir técnicas apuradas de sua modalidade (como disse Yuri Verkoshanski, em suas fundamentações para a validade da Periodização em Blocos).
Jogadores muito inteligentes, criativos, com técnicas muito bem executadas, velozes em suas ações e por consequência com táticas individuais elevadíssimas, deverão ser preparados para o voleibol do futuro.
Não pode ser esquecido, entretanto, que as capacidades de concentração, autocontrole, autoconfiança, determinação e resiliência é que permitirão que este novo voleibol seja praticado. Essas qualidades também são treináveis e deverão caminhar ao lado do desenvolvimento dos outros aspectos dessa nova forma de jogar.
Temos que formar novos Ngapeth e Larson. Se conseguirmos tal façanha retornaremos às características pioneiras do voleibol que mostramos ao mundo em nossa arrancada para nos tornarmos referência entre os melhores: nos tempos de Ricardinho, Giba, Dante, Ana Flávia, Fofão, Márcia Fú, dentre tantos, as nossas seleções eram compostas por especialistas em suas funções táticas com características de jogadores “universais”. Criamos uma maneira diferente e inteligente de jogar voleibol, e como referências, fomos copiados. Está na hora de voltarmos às nossas origens e nos reencontramos com o voleibol que criamos: o da inteligência e criatividade.
Esperamos não mais passar o constrangimento de ouvir os brados
que o comentarista da transmissão da televisão da final feminina lançava: “temos que entrar rasgando”, quando atacávamos, enquanto do outro lado da rede Larson e suas companheiras nos superavam com facilidade “esgrimindo”.
A Olimpíada de Tóquio mostrou que jogar com sutileza e picardia é o caminho para se vencer a robotização trazida ao voleibol pela utilização engessada das estatísticas.