UM BLOQUEADOR ENFRENTANDO ATACANTES DIVERSOS (10/08/20)
Por Ari Rabello
Quando comecei a escrever este artigo de bloqueio pensei em uma leitura leve sobre um fundamento do voleibol que sempre me encantou, mas que além disso também atendesse tecnicamente o tema, porém para esgotarmos o assunto um livro seria mais adequado, então espero que este tipo de abordagem atenda aos leitores.
O voleibol é um dos poucos esportes que a equipe só tem posse de bola na ação ofensiva. E isso provavelmente é o que motiva que a maioria dos jogadores queiram dominar o jogo através das cortadas que demonstrem a sua “raça” e capacidade agressiva. No entanto, devido à natureza deste esporte também teremos que atuar nas ações defensivas e elas também poderão ser ou não agressivas e isso se traduzirá na capacidade “ofensiva” de seus bloqueadores e sacadores. Poucas equipes de sucesso o conseguem sem bons bloqueadores e sacadores.
Quando falamos de bloqueio devemos ressaltar duas coisas:
1º - Que mesmo que ele tenha uma conotação ofensiva ele faz parte da ação defensiva da equipe;
2º - Que ele não tem uma ação isolada, mas sim em sincronia com a defesa de campo, tornando-se na verdade a primeira linha defensiva da equipe e a defesa de campo seria a segunda.
Na função de bloqueadores os jogadores atingem uma quantidade de ações com sucesso muito pequena, segundo alguns autores em torno de 8% do total de ações no bloqueio em uma partida, provocando em torno de 3 pontos por set. Neste momento caberia uma reflexão:
“Como um fundamento de jogo com tão pouco sucesso, pode ser de fundamental importância para uma equipe tornar-se vencedora? ”
Vamos inverter o processo, vamos resumidamente raciocinar como a equipe adversária irá montar seu sistema de ataque. Baseando-se no sistema de recepção de saque e sua qualidade, na capacidade do seu levantador de fintar utilizando toda a rede e suas duas linhas de ataque, no número e características dos atacantes envolvidos no sistema e a possibilidade de intervenção em toda esta organização do meu saque.
Entretanto mesmo após a análise acima, devemos refletir e poderemos chegar à conclusão que este fundamento do jogo não deverá ser treinado para perseguir os atacantes das equipes adversárias, mas sim cumprir um papel tático/estratégico onde se tornará um obstáculo a ser transposto pelos atacantes adversários. Assim orientando sua defesa de campo que ao defender a bola propiciará contra-ataques, tendo esta preocupação clara para seus bloqueadores a equipe passa a responsabilidade da disputa para os atacantes na disputa: Bloqueio x Atacantes.
Uma equipe que consiga sincronizar o uso tático do saque com seu sistema de bloqueio, poderá gerar uma expectativa de possibilidades de ataque do adversário e uma área que seu sistema de bloqueio deverá “proteger”. Assim possibilitará uma defesa de campo com responsabilidade reduzida e posicionada para atuar na sua função do contra-ataque ou seja o bloqueio não importando o número de participantes sempre gerará o que é chamado de “sombra de bloqueio”, corresponde a uma área da quadra onde a responsabilidade de evitar que o atacante “derrube a bola” seja dele.
Em função disto o técnico deve se debruçar no planejamento para escolher seus bloqueadores, em qual das posições jogarão (posições 2,3 e 4), quais funções terão (quem marcará a 1ª bola e como será a composição do bloqueio das possíveis fintas) e quais serão as posições técnicas e táticas básicas do bloqueio. Após estabelecer a quantidade possível, deverão ser muitas horas de treinamento para que todos os jogadores envolvidos atinjam o mesmo entendimento e performance nos sistemas adotados. Lembrando sempre que se deixarmos a cargo individual do bloqueador, cada um terá o seu próprio entendimento de como atuar e isto no jogo causará um desastre tático/estratégico, que acumulado culminará com a derrota. Sendo assim o papel didático do treinador torna-se de vital importância.
PRÉ-REQUISITOS PARA SER UM BOM BLOQUEADOR
1º - Muita vontade de bloquear, pois o sucesso como já vimos é muito difícil;
2º - Comprometimento com a equipe, pois até mesmo quando não toca na bola tem fundamental importância na defesa de campo;
3º - Uma boa estatura e envergadura, pois o ajudará no seu ponto de alcance;
4º - Velocidade e técnica perfeita no deslocamento, pois é o que o levará ao ponto desejado de salto;
5º - Gesto técnico perfeito, pois apesar de uma execução simples os fatores de variação da técnica estão nas “mãos” da equipe adversária;
6º - Capacidade de execução de vários tempos de salto, pois a altura, a velocidade, a distância e posições da rede em que a bola será levantada, só os levantadores adversários é que deverão definir;
7º - Técnica que privilegie o “campo visual”, pois desde sua posição básica até o possível contato com a bola, ele não pode desviar o olhar do que está acontecendo do outro lado da rede;
8º - Capacidade de leitura das possibilidades ofensivas da equipe adversária em função do número de atacantes envolvidos, suas posições e características técnicas;
9º - Tomada de decisão de onde bloquear dentro das possibilidades de ataque que se desenhou na quadra adversária;
10º - Comunicação prévia a seus companheiros de bloqueio e defesa de campo de suas definições técnicas e táticas e das dificuldades em executa-las;
11º - Competência para participar de bloqueios individuais e coletivos;
12º - Conhecimento de sua função tática no sistema de bloqueio em relação a sua colocação nas posições 2, 3 e 4.
DAS TÉCNICAS
As técnicas específicas do bloqueio vão desde sua posição básica alta numa situação anatomicamente confortável que privilegie o campo visual proporcionando prontidão para que o bloqueador traduza com passadas específicas que poderão ser laterais, cruzadas ou frontais a velocidade necessária para chegar equilibrado e em condições ideais para o salto, salto este que virá após uma frenagem feita com o pé correspondente ao lado do deslocamento feito, posicionando-o em direção a quadra adversária.
Dos “cuidados” que o bloqueador deve ter na escolha das técnicas de deslocamento e salto:
1º - Quanto mais de frente para rede, vendo as possibilidades de distribuição do levantador e deslocamentos específicos dos atacantes, melhor. Então o deslocamento lateral é a melhor opção, pois ele mantém o bloqueador de frente para a quadra adversária, porém ele também é o mais lento.
2º - Uma outra opção é o frontal vez que correr de frente para onde deve ir é o mais rápido, porém o bloqueador desviará o olhar da quadra adversária e provavelmente terá dificuldade no posicionamento dos pés na frenagem e também tende a fazer o movimento de braços da “chamada” da cortada afastando-o da rede e da junção para um bloqueio coletivo.
3º - Ainda temos as passadas cruzadas o que desvia menos o olhar da quadra adversária que o frontal, porém não é tão veloz quanto o frontal, mas o salto tende a ser mais equilibrado.
Alguns detalhes no deslocamento dos bloqueadores devem ser notados, antes da escolha pelo bloqueador:
1º - As passadas cruzadas jamais devem ser executadas com a passagem de uma perna por trás da outra, pois afastaria a frente do corpo da rede prejudicando o campo visual tirando o olhar do bloqueador da bola, do levantador e do deslocamento do cortador e deverá iniciá-las com o pé contrário ao lado do deslocamento;
2º - Os deslocamentos devem ser o mais rente do chão possível, pois apesar deles terem fase aérea, se ela for alta distanciando-o do chão, o tempo decorrido entre sair do chão e a aterrissagem faria com que o bloqueador retardasse o momento do salto e atrasasse o bloqueio;
3º - A escolha do deslocamento específico pelo bloqueador deverá levar em consideração sua posição na rede (2,3 ou 4), e a distância a ser percorrida por sua função tática dentro sistemas de bloqueio adotados pela equipe. Então voltamos para a discussão de que para pequenas distâncias o lateral deve ser mais utilizado.
4º - Lembrar que no jogo os bloqueadores envolvidos com a 1ª bola em função do passe e consequente posicionamento do levantador, deverão fazer deslocamentos laterais em posição básica, para melhor se situar na rede, e após a definição de onde irá bloquear, aí sim fazer as passadas apropriadas para o bloqueio;
5º - Podemos notar durante os jogos que os jogadores apesar de terem seus braços altos na posição básica e com as mãos na altura dos olhos ou acima da cabeça, quando se deslocam e as abaixam na altura do quadril conseguem ser ágeis, mais velozes, porém devem manter seus braços controlados para não esbarrar em seu companheiro ou na rede, fazendo assim no momento do salto o que costumeiramente chamamos de “remada”;
6º - Situações emergenciais poderão fazer com que o bloqueador utilize deslocamentos que o façam saltar com um pé só, para que não atrase e inviabilize o bloqueio, porém como já citado, são situações emergenciais, que não podem virar regra, pois se assim for, as escolhas dos deslocamentos estarão equivocadas e não atenderão à necessidade do bloqueador;
7º - Bloqueadores que na dinâmica do jogo, após uma ação de bloqueio numa extremidade da rede, terão que novamente bloquear, mas na outra extremidade da rede, deverão optar por técnicas de deslocamento que compensem o possível atraso, geralmente a técnica frontal.
O papel do treinador de identificar as possibilidades encontradas por seus bloqueadores em situações reais do jogo, fica assim evidenciado e deverá ser traduzido em exercícios no treinamento, que facilitem a execução do bloqueio no momento do jogo.
Após a definição do deslocamento que o levou ao ponto de bloqueio, o jogador deverá optar por uma técnica de salto onde ele ou será muito rápido, utilizando quase que somente a panturrilha num saltito, ou num salto de maior ponto de alcance onde o jogador irá utilizar quase que toda a musculatura das pernas, porém esta alternativa deixará o bloqueio com maior alcance, contudo um pouco mais lento. Eis um dos motivos que leva o jogador que marca a 1ª bola e que escolhe ser mais rápido, ter necessariamente uma estatura e envergadura maior para compensar no ponto de alcance.
Outro fator de técnica será a entrada das mãos sobre a rede para o contato com a bola atacada, que deverá ser definida pelas técnicas ofensivas e defensivas, diagonal ou a frente da bola e as combinações delas: ofensiva na diagonal, ofensiva à frente e etc...
Critérios para a escolha destas opções:
1º - A altura comparativa do ponto de alcance do cortador e do bloqueador, se há vantagem para o bloqueador a técnica será ofensiva fazendo com que as mãos do bloqueador devolvam a bola a quadra adversária, com uma trajetória incidente ao solo, caso seja para o cortador ela será defensiva fazendo com que suas mãos amorteçam a bola para que ela vá em direção a seu campo de defesa, assim sendo defendida e contra-atacada. Podemos então entender que mesmo os bloqueios mais baixos sejam um obstáculo para um cortador, é só ele se descuidar e tentar cravar uma cortada que ele achará o bloqueio;
2º - O atraso no tempo do salto, por ter sido fintado ou por ter tido a responsabilidade de “queimar” na 1ª bola, faz com que o bloqueador atrase o tempo ideal de salto, neste caso ele poderá lançar mão do bloqueio defensivo evitando que o cortador ”crave” a bola e seus defensores recuperem-na e propiciem um contra-ataque;
3º - A expectativa de trajetória da bola atacada deverá orientar a escolha das opções das técnicas ofensivas e defensivas somadas às de diagonais ou à frente da bola, fazendo com que o bloqueador mantenha a entrada da mão à frente da bola ou na sua diagonal.
Sempre devemos lembrar que quanto mais ofensivo o bloqueio mais baixo será o seu ponto de alcance, sendo assim, uma bola levantada um pouco mais longe da rede poderá passar por cima do bloqueio e ainda assim cair dentro da quadra. Para evitar isso, além de orientações prévias do técnico, o bloqueador deverá ter sensibilidade de trazer o bloqueio mais para próximo do eixo de seu corpo, aumentando assim o seu ponto de alcance.
No momento da fase aérea do bloqueio o corpo do bloqueador deve dar sustentação ao forte impacto da bola nas mãos do bloqueador, como também equilíbrio dinâmico para o trabalho de braço e mãos do bloqueador. Alguns autores citam que deve existir, por parte do bloqueador, a preocupação de formar com o corpo um “canivete” projetando suas pernas para frente, a fim de conseguir o intento acima descrito. E as técnicas específicas incluirão por fim, a aterrissagem que deverá ser da forma mais equilibrada possível.
Quanto mais próximo estamos do alto nível, encontramos um jogo mais complexo, mais veloz, de maior potência.
Sobre a aterrissagem, esta deve ser feita com os dois pés paralelos, com uma leve flexão das pernas para que de forma controlada amorteça o impacto da volta ao solo. Porém, na dinâmica do jogo, o bloqueador poderá ter que deslocar novamente para outro bloqueio, como quando foi fintado pelo levantador e deve se deslocar para a efetiva bola da finta, fato muito comum para jogadores de meio. Neste momento então o ideal seria ele cair com um pé só e contrário ao lado que irá deslocar, para que já com a primeira passada compense o atraso para aí sim, bloquear.
Neste momento cabe alguns questionamentos:
1º - O bloqueador tem desenvolvidas as musculaturas periféricas das articulações envolvidas na aterrissagem para cair em um pé só?
2º - O adversário tem velocidade em seu sistema ofensivo para que seja exigida esta técnica de aterrissagem?
3º - A complexidade do jogo das categorias de base, faz com que seja necessário ser adotada esta técnica?
Desta forma as escolhas das técnicas devem adequar da melhor forma possível ao seu bloqueador, porém deve-se ter em mente que nosso esporte é como se fosse um cobertor de solteiro, se cobrir a cabeça, os pés ficam para fora e vice-versa, cabendo por tanto ao treinador identificar no seu jogador a técnica que melhor se encaixará na sua função tática.
Como nosso esporte por força de regra faz com que nossos jogadores estejam em constante rodízio, todos aqueles que “passam’ pela rede devem ter conhecimento das opções de ataque dos sistemas ofensivos da equipe adversária e das possibilidades peculiares da sua passagem pela rede. Os jogadores também deverão saber qual será sua conduta dentro dos sistemas de bloqueio. Enfim, todo treinador deve ter consciência que o entendimento de como, quando e quem bloquear é bastante individual dentro de sua função tática e isso é o que chamamos de tática individual e para que a sua tomada de decisão seja dentro do cunho coletivo, precisam-se de muitas horas de treinamento para que a sincronia beire a perfeição e a isso chamamos de tática coletiva.
DA TÁTICA COLETIVA
O bloqueio quanto à sua composição poderá ser simples, duplo ou triplo sendo que durante uma partida temos uma incidência maior de bloqueios duplos, em segundo vem os simples e em terceiro os triplos. Caberia aqui um questionamento:
– “Qual seria a composição ideal e para onde fecharíamos o bloqueio”?
Com certeza a resposta da maioria para a composição seria o triplo, pois aumentaria a dificuldade do atacante e a chance de sucesso da ação do bloqueio. E então por que não é o mais utilizado?
Como já frisamos anteriormente a dificuldade de chegar no ponto de ataque do cortador é muito grande e só com muita inteligência para fazer a leitura das “dicas” proporcionadas pela equipe adversária ele poderá antecipar o que acontecerá para ter a tomada de decisão correta para aquela ação.
E para onde fechar o bloqueio?
Com certeza a opção de fechar o meio da quadra deve ser preponderante, pois é a maior porção da quadra e onde o atacante terá a maior segurança em direcionar e não errar a cortada, e aí escolher a opção de fechar o meio mais a diagonal ou fechar o meio mais o corredor, isto é um padrão para orientar todas as equipes. Já presenciei jogo onde o treinador pede para que seu bloqueio duplo deixe um “buraco” no meio a fim de que o atacante direcione ao meio da quadra a cortada por acreditar que o atacante teria dificuldade em perceber esta estratégia. Todavia, no meu modo de entender, nunca será uma situação padrão, e sim situações puramente emergenciais, não podemos confundir com a orientação do bloqueador de 1ª bola colocar uma mão em cada diagonal.
O treinador deve ter ciência de quais defensores de campo têm a capacidade de, com a visão periférica, verificar a composição e ação combinada do bloqueio, pois os defensores devem focar no golpe da bola que será feito pelo cortador e não na composição do bloqueio.
A distribuição das bolas pelo levantador somando a 1ª e a 2ª linha de ataque obedecem em termos gerais uma ordem de grandeza de 70% à frente e à direita do bloqueador central e de 30% para sua esquerda, estes dados devem influenciar a posição tática básica dos bloqueadores que poderão ter as seguintes opções:
1º - Fechada, central e as extremidades próximos no meio da rede;
2º - Aberta, central no meio da quadra e as extremidades próximas da lateral da rede;
3º - E uma situação mista, com o central no meio da quadra e uma das extremidades próxima a ele e a outra aberta.
O cuidado que se deve ter na possibilidade de escolha de qual posição tática básica do bloqueio adotar, será o de que alguns treinadores acreditam facilitar a vida do bloqueador central quando optam pelas extremidades abertas como base para o bloqueio coletivo e isso não é uma verdade absoluta, pois poderemos notar que os bloqueadores ao se deslocarem próximos uns dos outros formando o bloqueio coletivo, têm uma condição melhor de sincronia para o salto e consequente formação do bloqueio.
Após definir qual será a posição tática básica do bloqueio, o treinador deverá escolher o sistema de bloqueio compatível com ela e que cabe melhor para sua equipe em relação ao enfrentamento do adversário.
Sistemas mais utilizados
1º - Sistema homem a homem:
Cada bloqueador marca um atacante, sua preocupação primeira é com o seu atacante, depois em saltar com os outros bloqueadores para formar o bloqueio coletivo, este sistema poderá ser utilizado para formações ofensivas onde não haja cruzamento dos atacantes.
2º - Sistema de marcação por zona:
Define-se zonas de atuação do bloqueador na rede e a responsabilidade dele é com o atacante que venha cortar em sua zona e depois irá saltar com os outros bloqueadores para formar o bloqueio coletivo. Este sistema é utilizado para equipes que fintam com trocas de posição de seus atacantes.
3º - Sistema de leitura
Todos os bloqueadores mantêm suas posições até o levantamento, após observarem o levantamento e não a finta e os deslocamentos dos atacantes, eles irão se deslocar e formar o bloqueio coletivo. Este sistema pode ser utilizado contra equipes com muitas combinações ofensivas e os bloqueadores poderão ter como objetivo um bloqueio defensivo, pois seu salto contará com um certo atraso.
4º - Sistema de marcação da 1ª bola
Partindo de um bloqueio simples determina-se um bloqueador (que poderá ser o ponteiro ou o mais comumente o central) para “queimar” na 1ª bola e caso ele seja fintado, após a queda ele irá para a bola levantada da finta, formando o bloqueio coletivo. Este sistema é utilizado quando há uma grande incidência de 1ª bola e devemos ter a preocupação que este bloqueador ao ir compor o bloqueio coletivo, poderá se atrasar e assim poderá compensar nas passadas ou com a técnica defensiva da entrada das mãos.
Atualmente pela diversidade e poder das formações ofensivas, as equipes buscam utilizar formações de bloqueio que combinem principalmente a marcação de 1ª bola com o sistema de leitura e em algumas situações específicas num jogo, os outros sistemas poderão ser utilizados, assim o contínuo desenvolvimento do bloqueio individual no treinamento se fará necessário.
A busca por sistemas de bloqueio que anulem as formações ofensivas dos adversários, só poderá ser eficaz, quando auxiliada por filmagens e incidência estatística que orientem passagem por passagem, nos seis rodízios, assim dando aos bloqueadores a possibilidade de antecipar as ações ofensivas do adversário e colaborar com a equipe nas suas ações defensivas.
Outros sistemas de bloqueio já foram utilizados e pelo alto grau de complexidade ou pela evolução dos sistemas ofensivos foram considerados superados.
Hoje há um maior investimento nas técnicas de saque, para que dificultem as formações ofensivas.
Existe também a possibilidade de trocas de posição entre os bloqueadores e a principal delas é a troca do levantador de baixo ponto de alcance que originalmente ficaria na posição 2 com o ponteiro que estaria na posição 4, pois o principal atacante estaria vindo pela posição do levantador. Existem outras possibilidades, como por exemplo a de colocar o melhor bloqueador de bolas rápidas na posição 4 para bloquear uma alta incidência de 1ªs bolas por trás do levantador e para finalizar os exemplos, existe também a possibilidade de retirar um bloqueador de baixo ponto de alcance quando em função de um saque que “quebrou” o passe adversário, faça com que o levantamento seja de fácil antecipação, e os dois melhores bloqueadores irão fazer o bloqueio duplo, este exemplo tem maior incidência quando o levantador está na rede.
A função do treinador além de identificar nos sistemas de ataque da equipe adversária, quais atacantes recebem maior número de bolas, de qual posição, suas características técnicas e incidência de suas cortadas através de observações e dados estatísticos, devem propiciar nos seus treinamentos oportunidades para que seus bloqueadores vivenciem aquilo que irão enfrentar na hora do jogo e antecipem as ações dos levantadores e atacantes, se não incorrerão no risco de se deparar com situações como esta (vide exemplo abaixo):
Pergunta do treinador - “Você não viu que ele iria usar o bloqueio”?
Resposta do jogador - ”Se tivesse visto tiraria a mão, mas não vi”
Fica aqui a seguinte reflexão – “Será que o treinador oportunizou esta situação em seu treinamento para que o jogador a vivenciasse, e na hora do jogo tivesse a leitura correta da situação e tirasse a mão? ”
Portanto, aonde pensávamos lá atrás, quando começamos no voleibol, que haviam segredos guardados “a sete chaves”, de impossível acesso e que sendo assim jamais conseguiríamos capacitar nossos jogadores, encontramos na verdade princípios didáticos e biomecânicos a serem respeitados para embasar o trabalho de planejamento e treinamento atendendo a especificidade dos nossos jogadores, estreitando cada vez mais a distância do treinamento para a realidade do jogo.
O Sonho Europeu
Prof. Romeu Beltramelli Filho
Quando começamos nossa vida profissional, somos guiados por sonhos e desejos que nem sempre nos julgamos suficientemente capazes para alcançá-los ou que, em nossa insegurança de debutante, julgamos o objetivo inatingível.
Uma vez vencida esta primeira barreira, com experiências e oportunidades aproveitadas, podemos focar em nosso sonho. E para materializá-lo precisamos estar bem “acordados” para as novas situações e oportunidades que ocorrem ao nosso redor.
A palavra “foco” pode fazer toda diferença pois, nesse pequeno substantivo, estão implícitos fatores como organização, planejamento, conhecimento estratégico, tomada de decisões, gestão de novas situações, ‘’feeling’’ para boas escolhas etc… Para nos organizarmos e poder fazer um planejamento possível, o primeiro passo é nos situarmos dentro do nosso métier, no caso, o voleibol, um esporte criado em 1895 por William Morgan, gerenciado pela Federação Internacional de Voleibol - FIVB, que conta com 222 países e 5 Confederações filiados. Entre essas cinco confederações filiadas (Asiática - AVC, Africana - CAVB, Sul Americana - CSV, Norte - Centro Americana e Caribe - NORCECA), está nosso alvo a Europeia - CEV.
A Confederação Europeia possui 56 países filiados que poderão abrigar nossos sonhos. Para falarmos sobre os caminhos que podemos seguir para a realização do nosso sonho de trabalhar na Europa, precisamos conhecer algumas regras formais que são válidas para diferentes países europeus. A prioridade de aproveitamento de um profissional estrangeiro, normalmente, deve obedecer a seguinte ordem:
1- A não existência de um profissional local;
2- A não existência de um profissional pertencente a Comunidade Europeia e/ou Espaço Schengen;
E mesmo observados os itens acima, o profissional estrangeiro precisa ainda possuir uma nacionalidade de um dos países membros da UE e/ou Espaço Schengen. Porém, na falta dessa possibilidade, existe ainda outro critério a ser analisado:
3- O profissional estrangeiro com reconhecido destaque não encontrado no mercado de trabalho local (UE e/ou Espaço Schengen), pode obter visto de trabalho para ingressar na Europa. Claro que cada país possui uma regra específica, mas esses primeiros requisitos citados são primordiais para transformar o sonho em realidade.
E o que significa UE e Espaço Schengen? A União Europeia (UE) é uma união econômica e política de 27 Estados- membros independentes, situados na Europa, e tem como capital a cidade de Bruxelas-Bélgica. A UE constitui um mercado comum através de um sistema harmonizado de leis aplicáveis a todos os Estados-membros, que tem por objetivo assegurar a livre circulação de pessoas, bens, serviços e capitais, legislar assuntos comuns na justiça e manter políticas comuns de comércio. Outra característica da UE foi a criação em 1999 de uma união monetária, denominada Zona do Euro que é atualmente composta por 18 Estados-membros. Existe ainda o Espaço Schengen (que inclui 22 Estados-membros e 4 Estados não membros da UE) onde foram abolidos os controles de passaporte. Esse tratado permite uma área de livre circulação entre seus membros, ou seja, os países que fazem parte do Espaço Schengen eliminaram suas delimitações internas e fazem apenas o controle externo das fronteiras. Além de abolir o controle de passaporte entre os países membros, o tratado determina que um visto de permanência emitido por qualquer um dos países do Espaço Schengen, autoriza a circulação de forma legal por todas as demais nações membros.
Mas só conhecer os caminhos legais não é suficiente para realizarmos nosso sonho. O investimento pessoal deve pautar nosso caminho. Falar uma outra língua além do português é indispensável. O inglês é o mais aceito na Europa, porém, existem ofertas para o posto de Técnico que exigem um conhecimento básico da língua do país. No voleibol, as línguas italiana e francesa são também muito bem vindas.
Nosso percurso profissional também é importante e pode fazer toda diferença. Ter pertencido à comissão técnica de Seleções Estaduais e/ou Nacionais pode ser decisivo num processo de recrutamento. Outra condição que pode ser favorável, aliada às colocações acima, é a existência de um diploma de Professor de Educação Física com Pós Graduação ‘’Lato Sensu’’ ou Mestrado. Apesar de alguns países não relacionarem a profissão de técnico com a de professor de educação física, isso pode representar alguns pontos positivos em um processo de recrutamento.
Um investimento muito importante são os cursos da Confederação Brasileira de Voleibol - CBV e por quê ? Como dissemos, cada país tem sua formalidade para conceder o visto de trabalho e também existem diferenças quanto às permissões para dirigir as equipes de voleibol. Existem países que simplesmente validam nossos cursos da CBV, como por exemplo a Suíça. Um técnico que possui o curso nacional nível 3 no Brasil, pode obter a validação como Técnico TA na Suíça. Técnico TA na Suíça é a graduação máxima, que permite dirigir equipes nas ligas A e B, sendo que a cada dois anos é obrigatório realizar uma validação/atualização pautada em cursos. Por outro lado, na Itália, um técnico para dirigir uma equipe da liga A, independente da sua graduação, precisa fazer os cursos de formação da Federação Italiana de Voleibol - FIPAV em quatro níveis.
Como os países possuem seus próprios critérios para escolha do profissional, os exemplos citados ilustram situações opostas, que confirmam o quanto o conhecimento antecipado dessas condições, pode nos ajudar muito quando estivermos diante de uma oportunidade clara de trabalho na Europa. Existe ainda uma outra possibilidade de conseguir uma vaga na Europa:
4 - Ser agenciado por uma empresa esportiva. O Agente de Atletas e/ou Técnicos tornou-se nos dias atuais uma figura importante no mercado esportivo e do voleibol.
Esses agentes, com relações multinacionais, podem ser um fator de facilitação para a entrada no mercado Europeu, desde que observados os critérios acima descritos.
Uma vez atingido o sonho de trabalhar na Europa, não podemos esquecer que precisamos continuar sempre focados. Estar na Europa não assegura nossa permanência. Isso envolve não só o aspecto profissional, mas principalmente o social e pessoal: a adaptabilidade, o conhecimento e respeito à uma nova cultura, a integração social e claro os resultados adquiridos, são de grande importância para uma longa permanência.
‘’Nada lhe pertence mais que seus sonhos’’
Friedrich Nietzsche
Prof. Romeu Beltramelli Filho
Técnico VBC La Suze - Suíça 🇨🇭
Referências bibliográficas: