Comunicando para vencer: a ciência e a arte da comunicação no Voleibol
A importância da Psicologia na prática esportiva de alta performance é cada vez mais reconhecida, por treinadores, atletas e estudiosos do assunto. Claro que, quando se trata de esporte de alto rendimento, é muito comum que as comissões técnicas, responsáveis por atletas e equipes, contem com a presença de psicólogos especializados na área, que procuram dar suporte aos aspectos comportamentais envolvidos nas atividades ligadas aos treinamentos e às competições. Todo suporte psicológico visa fazer com que os praticantes tenham motivação e discernimento para buscar o máximo de seus potenciais em treinos e jogos.
“Entretanto no trabalho diário, é o treinador que lida com as preocupações psicológicas para que suas equipes possam treinar e competir empenhando-se ao máximo, de maneira lúcida e recompensadora”. (Bompa, 2012)
Este estudo buscará encontrar as maneiras mais adequadas de comunicação a serem utilizadas pelos treinadores de voleibol, na busca da boa atuação de seus liderados.
Como líder, o treinador deve buscar que os objetivos do clube e/ou patrocinador sejam atingidos, no que diz respeito ao sucesso da equipe. Mas, como líder, esse treinador somente terá sucesso se também criar meios para que todos os participantes de sua equipe tenham as suas necessidades e anseios assegurados (Weinberg e Gould, 2017).
É fundamental que o treinador de voleibol conheça bem a sua modalidade e tenha uma formação multidisciplinar, como já salientamos em outros estudos. Entretanto, a sua principal ferramenta é uma boa capacidade de comunicação com seus atletas e equipes.
A comunicação e o relacionamento técnico-atleta
É esperado que um treinador, ao se comunicar em treinos ou jogos, seja claro em suas instruções técnico-táticas, seja motivador e transmita confiança aos seus liderados. Devemos, para tanto, lembrar que existem técnicos com diferentes estratégias para se relacionar com seus atletas, assim como atletas que, por possuírem características individuais próprias, recebam de maneiras diferentes, uma mesma manifestação proveniente do treinador.
Outro fator, que deve ser levado em consideração pelos treinadores, é a questão do gênero de seus atletas. Weinberg e Gould (2017) também baseados em trabalhos de outros autores, sugerem que as atletas de equipes femininas preferem uma liderança mais democrática que os do masculino, e propõe que os treinadores, ao se comunicarem com elas, procurem dar a oportunidade de participação nas decisões.
Se além de traços de personalidade diferenciados, os praticantes possuem objetivos, tempos de prática, históricos competitivos e importância dentro do grupo próprias, como deve ser a comunicação dos treinadores com esses atletas, para que todos recebam de forma eficiente as suas intervenções?
A importância de um bom relacionamento entre treinadores e atletas merece muita atenção pois, Bojikian (2013) apontou, em sua tese de doutorado, que a qualidade desse relacionamento é uma das principais causas pela falta de aderência de atletas à prática do voleibol competitivo.
O papel do treinador no planejamento de carreira do atleta
É recomendado que todo treinador de voleibol, saiba as características físicas, técnicas, táticas e o traço de personalidade de cada um de seus atletas para bem orientá-los.
É interessante também, que cada atleta lhe dê ciência de suas metas técnicas, táticas e comportamentais a serem atingidas a curto, médio e longo prazo. De posse dessas informações, o treinador de voleibol terá a oportunidade de traçar, junto com o atleta, um plano de sua carreira, medida que abrirá um forte canal de comunicação entre eles. O trabalho do dia a dia estará facilitado! (Cozac, 2017)
Torna-se fundamental também, nos tempos atuais, que esse planejamento de carreira seja compartilhado com o agente ou empresário de cada atleta, caso contrário haverá chances de fracassos, pois provavelmente acontecerão conflitos de interesses. Caso isso ocorra, a tendência é que o mais prejudicado seja o atleta.
Conforme foi salientado acima, o treinador deve elaborar, para cada um de seus atletas, um plano de carreira, prevendo seu desenvolvimento. Portanto, para que o planejado seja mais facilmente atingido, é indicado que treinador e atletas tenham encontros periódicos para que avaliem, de forma franca seu desempenho. Cada parte se manifestando como veem o progresso do atleta, e ambos avaliando como estão se ajudando e como podem evoluir nesse processo.
Quais as principais estratégias para a comunicação efetiva entre treinadores e atletas?
A comunicação se realiza por etapas: o treinador sente a necessidade de enviar uma determinada mensagem, elabora o conteúdo a ser transmitido, escolhe a forma de se comunicar. A mensagem emitida é decodificada pelo atleta, que terá uma resposta interna à mesma, para então agir. As mensagens podem ser enviadas de forma verbal ou não verbal.
Nas comunicações verbais o treinador precisa ser claro, objetivo, e ter a certeza de qual a forma mais adequada para aquele atleta ou equipe, o que torna fundamental que os treinadores conheçam bem os seus comandados.
Já as comunicações não verbais durante os treinos ou jogos, por serem normalmente feitas por manifestações espontâneas, muitas vezes não são as mais adequadas para o momento. Mas podem ser mais influenciadoras que as verbais, pois chegam para os atletas com autenticidade.
As expressões corporais dos treinadores e dos atletas são extremamente reveladoras. Elas, por exemplo, quando manifestadas após ações exitosas ou falhas, são totalmente diferentes e revelam, em muito, o estado emocional das pessoas. Por isso acreditamos que durante o seu trabalho, muitas vezes, os treinadores além de possuírem muito autocontrole, deverão atuar como atores, para mascararem seus sentimentos, ou para passar aos seus atletas um sentimento que realmente não está dentro de si, mas pode ser importante diante de determinada situação.
É importante comunicar-se com cada atleta individualmente, em algum momento, para valorizar sua participação no grupo e para que ele sinta que o treinador se importa com ele. Há treinadores que conseguem uma maior proximidade com atletas quando, ao se comunicarem individualmente com eles os tocam, os abraçam enquanto falam. Isso faz, muitas vezes, com que o atleta sinta que treinador é muito interessado em seu desempenho, e que é seu amigo. Entretanto há a necessidade de que esses contatos físicos sejam perante o grupo e respeitosos, para que não sejam confundidos com assédio.
Para as comunicações verbais, Weinberg e Gould (2017) sugerem algumas diretrizes para que elas se tornem mais efetivas:
1- O treinador deve ser direto e objetivo. Ele deve se mostrar como o “dono da comunicação”, ou seja, como líder, ele demonstrar que sabe o que está propondo, com mensagens claras e consistentes.
2- Ele deve ser claro, e sua mensagem deve ser específica para o atleta ou grupo a que esteja se dirigindo.
3- As mensagens devem ser claras e consistentes, jamais dúbias, causando dúvidas. Sempre, ao colocar uma observação, o treinador deverá embasá-las com fundamentações, argumentos, fatos, levantamentos estatísticos, vídeos etc.
4- As mensagens devem focar, a cada momento, apenas um assunto, para não confundir os atletas.
5- Ao detectar um problema, o treinador deve comunicá-lo o mais rapidamente possível, para que ele não se arraste e aumente.
6- Não deve haver entre o treinador e os atletas comunicações com objetivos ocultos e subjetivos, pois isso pode levar a várias interpretações e a desarmonias do grupo.
7- Ao se comunicar com um atleta para corrigi-lo e/ou fazer cobranças, o treinador deve mostrar que o apoia, que o respeita, pois desta forma será ouvido e respeitado. Deve mostrar interesse na evolução do atleta. Desrespeitar, ameaçar ou agredir verbalmente é caminho certo para que o relacionamento se deteriore.
8- Ao se comunicar verbalmente, a suas expressões corporais e faciais necessitam ser compatíveis com o conteúdo, para que o treinador se mostre autêntico.
9- Ao reforçar um ponto importante de suas instruções técnicas e táticas, o treinador não deve ser repetitivo. Ele deve variar a abordagem com vídeos, desenhos, por exemplo.
10- A linguagem e os conteúdos a serem transmitidos devem compatíveis com a capacidade de entendimento dos atletas. Caso contrário, as instruções, ao invés de ajudar, confundirão os atletas.
11- Ao se comunicar, o treinador precisa ter a certeza de que sua mensagem foi realmente captada pelos atletas. Tendo dúvida sobre o êxito da sua comunicação, o treinador deve elaborar perguntas aos atletas.
12- Sabe-se, que antes dos treinos ou dos jogos, os atletas necessitam atingir um estado ótimo de performance, além de mostrar lucidez, determinação, confiança e espírito de equipe.
Comunicação na sessão de treino
Toda sessão de treino de uma equipe de voleibol deve iniciar-se com uma reunião em que o treinador informa os objetivos da sessão com relação ao grupo e a cada atleta, pois todos os participantes necessitam saber o que devem, e como devem buscar. Isso deve motivá-los a obterem uma boa prática.
As metas colocadas devem ser claras, objetivas, mensuráveis, fundamentadas, e de consenso de todos. Cabe ao treinador fazer com que isso aconteça através uma comunicação convincente e motivadora.
Durante o desenvolvimento da parte principal do treino, o treinador deve realizar elogios – sinceros e na medida certa – correções com reforços positivos, elogiar os esforços e nas correções, mostrar o que deve ser feito e como deve realizado. Críticas exageradas, que exponham o atleta perante o grupo, criam ansiedade e insegurança, aumentando o risco do erro persistir. O atleta sabe que errou e não necessita que o treinador o repreenda, e sim mostrar como deve se comportar em sua próxima ação. Já os elogios desmedidos também podem soar falsos e desmotivar o praticante.
Treinadores que usam punições, quando atletas cometem erros técnicos ou táticos através de exercícios físicos, na verdade estão mostrando que aquelas atividades não são recompensadoras, quando utilizadas como condicionamento físico, por exemplo. Estão, através dessas punições, tornando o trabalho de preparador físico pouco atraente para os jogadores.
Deve o treinador de voleibol, algumas vezes durante as sessões de treinos, estimular, através de exercícios com intensidades e volumes mais altos que os usuais, que os atletas saiam de suas zonas de conforto na busca de uma superação. São exercícios com estas características, que muitas vezes fazem com que os atletas conquistem novos patamares de performance. Somente uma comunicação contagiante, por parte do treinador, fará com que os atletas se esforcem além de seus limites normais. Seria ainda mais produtivo se o treinador conseguisse que todo o grupo incentivasse os atletas envolvidos naquela atividade. Isso, além de melhorar o desempenho de quem realiza o exercício, aumenta a coesão da equipe, faz com que todo o grupo se sinta participante e responsável pelo sucesso a ser obtido.
É interessante lembrar que se os treinos de voleibol forem compostos por exercícios que possuam somente a mesma exigência física provocada da intermitência exigida pelo jogo de voleibol, jamais os atletas sairão de suas áreas de conforto, dificilmente evoluirão e tampouco se tornarão persistentes e resilientes. A monotonia no treino facilita a distração.
Desrespeito, atrasos em treinos e deslizes disciplinares, ocorrem no dia a dia de uma equipe de voleibol, da mesma forma que em qualquer grupo de pessoas de outras atividades. Mello, Cozac e Simões (2013) afirmam que uma forma de não causar controvérsias e insatisfações, quanto as punições às indisciplinas, é passar ao próprio grupo de atletas a responsabilidade por suas ações. Os autores sugerem que, na pré-temporada, sejam acordadas as regras de comportamento, porque devem ser seguidas e como serão punidos os infratores.
Comunicação antes, durante e após as partidas
A comunicação entre treinador e atletas em uma partida, inicia-se na reunião da preleção, onde o treinador procurará trazer para a sua equipe o estado de prontidão para a competição.
É comum nessas preleções, que as comunicações sejam revestidas, além de conteúdos técnicos e táticos, de envolvimento emocional, em dose certa. O treinador além de fazer um breve resumo do plano de jogo, deverá transmitir confiança, tranquilidade, mas também entusiasmo. Mais do que nunca, as suas comunicações verbais, corporais e faciais devem, assim como durante as partidas, ser extremamente interrelacionadas, para que os atletas realmente acreditem nos propósitos do treinador.
Tem sido muito utilizada a estratégia dos treinadores escolherem um atleta para que, perante o grupo, faça, nas preleções que antecedem as partidas, a exposição das estratégias ofensivas ou defensivas preparadas para elas. Isso cria o hábito de todos assimilarem os conteúdos dos planos de jogos elaborados e treinados pelo técnico, pois sabem que terão de falar sobre o assunto.
No transcorrer das partidas a comunicação do treinador tem, como principal finalidade, resolver os possíveis problemas que os atletas encontrarão nelas, e facilitar o trabalho deles. O desenvolvimento de cada partida, vai demonstrando ao treinador de voleibol se suas estratégias previstas estão sendo cumpridas, se estão sendo eficazes, se os ajustes que se fazem necessários são de características físicas, técnicas, táticas ou emocionais. Uma vez detectada a razão do ajuste necessário, o treinador precisa apresentar uma solução o mais prontamente possível através de comunicações curtas, diretas e precisas. É necessário que o treinador esteja ciente que seus comandados esperam dele soluções, apoio e incentivo.
Os pedidos de tempo devem ser aproveitados para melhorar a performance dos atletas e da equipe. Quando solicita o tempo, o treinador deve ser objetivo e claro para comunicar as mudanças de comportamento esperado. Deve demostrar que acredita que seus atletas irão superar os problemas encontrados até então. Quando o treinador adversário faz o pedido de tempo, seria interessante que além de ajustes normais, o treinador desse à sua equipe, uma previsão de quais alterações provavelmente ocorrerão na equipe oponente, e o que se deve fazer para se contrapor, caso elas realmente aconteçam.
Durante a partida ao dizer ao atleta que ele não pode errar, o treinador demonstra que não sabe o que deve ser feito e como deve ser feito, naquela situação. É chover no molhado, pois o atleta não erra porque quer! O treinador deve comunicar como deve ser evitado o erro, se possível antes que ele ocorra. Afinal do treinador de voleibol, durante o jogo se posiciona ao lado da quadra, muito próximo dos atletas. Já os treinadores das equipes profissionais, além de estarem próximos à linha lateral da quadra, recebem durante toda a partida, através de um fone de ouvido, informações técnicas e táticas enviadas pelo seu staff responsável pelos levantamentos e acompanhamentos estatísticos.
Por se posicionarem ao lado da quadra a comunicação do treinador com seus atletas se tornou algo corriqueiro e essencial. Entretanto, para que os atletas adversários não saibam os conteúdos das instruções, os treinadores têm recorrido a gestos ou expressões codificados. Eles são preparados e ensaiados nas sessões de treinos.
Uma característica peculiar dos jogos de voleibol é o crescimento progressivo da ansiedade no transcorrer dos sets. A proximidade da vitória ou derrota faz com que o comportamento emocional das equipes se exaspere, fazendo com que os treinadores precisem ter, nesses momentos, a capacidade de se comunicar de forma adequada com suas equipes e com cada um de seus atletas.
Aqui, a situação exige que o treinador consiga ter autocontrole para se comunicar de acordo com as necessidades momentâneas de seus atletas e equipes.
O transcorrer das partidas requer também que os treinadores e seus companheiros de comissão técnica orientem os atletas reservas e aqueles titulares que forem momentaneamente substituídos. Os reservas deverão, através de comunicações objetivas, claras e motivadoras, ser preparados para resolver problemas que o titular não está conseguindo. Não é fácil! Já os titulares que forem retirados do jogo, merecem ter ciência do porquê foram substituídos e o que, e como devem fazer para satisfazer as necessidades da equipe. Além do conteúdo técnico e tático, o treinador, ao se comunicar com eles, deve demostrar que confia neles e que são capazes de superar a situação que lhe é, momentaneamente, desfavorável.
Após o término das partidas é recomendado que o treinador faça comentários bem objetivos, claros e curtos, mas de forma convincente. Ele é o líder e deve, nesses momentos, agir como tal! Logo após vitórias ou derrotas, o estado emocional de todos – treinadores e atletas - não permitirá avaliações ponderadas, bem como as suas adequadas assimilações. Deve ser feito um rápido resumo do desempenho da equipe como um todo, alguns incentivos e ponderações. Deixa-se para o início do próximo treino uma avaliação detalhada do desempenho de todos, na partida em questão, quando os ânimos estarão acalmados e mais aptos para raciocinar.
Orlick (2015) apud Weinberg e Gould (2017) sintetiza muito bem, o que pensamos, sobre como deve a relação e a comunicação entre treinadores e atletas de voleibol.
“A harmonia se desenvolve quando você realmente escuta os outros e eles o escutam, quando você considera os sentimentos deles e eles os seus, quando você aceita as diferenças deles e eles aceitam as suas e quando você os ajuda e eles o ajudam”.
Vamos observar durante a Olimpíada de Paris, que os treinadores das grandes equipes adotam estilos diversos de comunicação, e em breve, um novo texto abordará essa questão. Mandem seus comentários!
Bompa TO, Haff GG. Periodização: Teoria e Metodologia do Treinamento. 5a. edição. Phorte (2012).
Weinberg RS, Gould D. Fundamentos da psicologia do esporte e do exercício. 6. ed. ArtMed (2017).
Orlick T. In pursuit of excellence. Human Kinetics (2015).
Cozac JRL. Psicologia do esporte: atleta e ser humano em ação (2017).
Mello DD, Cozac JRL, Simões AC. Preparação psicológica para atletas de alto rendimento. Psicologia do esporte: atleta e ser humano em ação. Roca (2013).
Bojikian LP. Processo de formação de atletas de voleibol feminino. (2013). Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.