BLUVOLEI 30 anos: nossas peneiras (11/06/20)

 

Olá pessoal!

Aqui é a profªLuciana.

 

Resolvi escrever esse texto motivada pela comemoração de 30 anos da fundação do Blumenau Voleibol Clube, o BLUVOLEI, da qual fizemos parte (João Crisóstomo e eu) e onde trabalhamos até 1997.

 

Quando fomos para Blumenau, em 1987, o João e eu, fizemos um acordo com a Hering, que foi quem convidou o João para ser o técnico da equipe adulta feminina. Tínhamos duas opções: usar o orçamento total para montar uma equipe adulta forte para disputar a Liga Nacional (ainda não era Superliga) ou, usarmos o orçamento para montar uma equipe adulta de porte médio e montarmos uma estrutura para organizar todas as categorias para que, no prazo de 5 anos, estivéssemos revelando jogadoras de alto nível formadas nas nossas categorias de base. Foi escolhida a segunda opção e iniciamos o trabalho. É claro que mantivemos e demos continuidade ao trabalho de base que já existia quando chegamos. Infelizmente a parceria com a Hering terminou em 1990 por conta do plano “Collor”, mas o trabalho de base prosseguiu.

 

O trabalho de formação de atletas realizado nesse período, foi muito bem planejado e executado por toda a equipe técnica.

 

Retornando a São Paulo voltei para a Universidade para fazer o mestrado. Durante muitos anos participando de grupos de estudo e pesquisa na Escola de Educação Física e Esporte da USP, onde defendi mestrado e doutorado, estudei e pesquisei sobre talento esportivo, não só no voleibol como em outras modalidades.

 

Para poder entender e fazer as pesquisas, fiz alguns cursos de estatística, que me ajudaram a entender melhor os fenômenos talento esportivo e treinamento a longo prazo, e estudar quais as variáveis e quais análises estatísticas podiam ser utilizadas para explicar melhor o sucesso no Voleibol.

 

Mas isso ocorreu a partir do ano de 1999, quando voltei para a Universidade pensando em estudar e fazer o mestrado. No entanto, sem esse conhecimento estatístico, nós já fazíamos algo parecido com as análises que eu iria conhecer mais tarde.

 

 

 

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De 1988 a 1997, para formar as turmas de escolinhas, manhã e tarde, que teriam 20 meninas cada, visitávamos as escolas de Blumenau e convidávamos cerca de 200 meninas por ano, para comparecerem ao ginásio do SESI para testes. Essa era a nossa “peneira”. Eram meninas de 10 a 13 anos. Na escola eram convidadas principalmente as mais altas, aquelas que sentavam no fundo da sala de aula, e nem sempre eram as melhores na Educação Física.

 

Nos testes da “peneira” as meninas nem pegavam na bola de vôlei. O que queríamos fazer era uma avaliação da aptidão para o voleibol. Fazíamos testes antropométricos como estatura, peso, envergadura, estatura sentada e medida dos membros inferiores; e testes de desempenho motor como potência de salto vertical e horizontal, velocidade e agilidade. As meninas também preenchiam uma anamnese onde informavam, por exemplo, a estatura dos pais, se já haviam tido a menarca e em que data, e também preenchiam um teste psicossocial.

 

Sem ter conhecimento de análises estatísticas naquela época, nós estipulávamos uma ordem de importância dos testes, por exemplo 1º estatura, 2º salto vertical, etc. Cada posto (1º, 2º, 3º) tinha um valor de pontos atribuído e dessa forma era feita uma classificação geral.

 

As meninas aprovadas entravam para a escolinha onde passavam pela aprendizagem dos fundamentos de acordo com o método Bojikian. Ao final de um ano de aprendizagem eram encaminhadas para as equipes de pré-mirim e mirim.

 

É claro que meninas mais velhas também poderiam fazer um período de treinos para tentar ingressar nas outras categorias.

 

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Durante todo o processo, em que as meninas passavam por todas as categorias, sempre foram realizadas avaliações cineantropométricas e acompanhadas as evoluções em grupo e individuais, que eram feitas com equipamento muito simples.

 

O monitoramento da maturação se mostrou fundamental para entender a evolução de cada menina, por exemplo, saber que as meninas de maturação tardia se desenvolveriam um pouco depois das outras, e entender que as meninas de maturação precoce poderiam ser mais altas no início do processo, porém completariam seu crescimento mais cedo.

 

E assim foram realizadas as nossas “peneiras” durante todo o tempo que estivemos em Blumenau. Muitas das meninas que iniciaram nas escolinhas chegaram às equipes adultas do Bluvolei ou de outras equipes. Algumas delas foram convocadas para seleções brasileiras de base. Um ponto muito importante dessa história foi que além de atletas, formamos pessoas especiais, que aprenderam, com resiliência, a enfrentar dificuldades, e se uniram para lutar pelo que queriam, que era ser atletas de voleibol. Esse sem dúvida foi um trabalho de sucesso que deu a Blumenau muitos títulos em Jogos e Joguinhos Abertos, e criou laços que perduram até hoje.