Detalhes na montagem do Sistema de Ataque 5X1 (31/08/20)
Introdução
O sistema de ataque 5x1 é o mais utilizado por equipes do voleibol atual, a partir da categoria sub 15.
No início de sua utilização, as características básicas do referido sistema traziam, a princípio, um desequilíbrio em suas passagens de rodízio, pois possuía três passagens “mais fortes”, seguidas por “três mais fracas”. Nos três rodízios em que o levantador estivesse nas posições de defesa, ao realizar infiltrações, a equipe contava com três atacantes da rede para duelar com os três bloqueadores do adversário. Já nos três rodízios com o levantador na rede, havia dois atacantes para enfrentar os três bloqueadores oponentes.
A partir de meados dos anos 70, como os ataques do fundo se tornaram muito comuns, o sistema de ataque 5X1 passou a ter novas características. As três passagens de rede em que o levantador está na rede, ganharam um aumento no número de atacantes, pois passaram a contar com três ou até 4 atacantes, pois, além dos dois atacantes da rede, os opostos e ponteiros, quando nas posições de defesa, passaram a ser utilizados como atacantes de forma corriqueira. Quando o levantador infiltra, possibilita que a equipe possa ter até cinco atacantes.
Outro fator que tornou o sistema 5X1 mais ofensivo foi a utilização de levantadores altos. Isso, além de estimular a aceleração dos ataques, fez com que estes jogadores, ao atuarem saltando, ou seja, em suspensão, tenham se tornado também atacantes, pois podem largar ou bater bolas de “segunda”. Portanto, um levantador, estando em uma das posições de ataque, ao trabalhar com passe ”A” e em suspensão, atrai sempre a atenção de um bloqueador adversário, o que facilita as ações dos reais atacantes de sua equipe.
Armação definitiva da equipe titular
A montagem mais comum do sistema 5X1, nos tempos atuais, é constituída por:
- dois jogadores centrais que são especialistas nas ações realizadas na posição 3.
- dois ponteiros, que na rede jogam na posição 4, uma vez realizadas as trocas.
- um levantador, que estando na rede atua na posição 2 e no fundo na 1.
- um atacante, chamado de oposto, que na rede atua na posição 2 e no fundo na posição 1.
Uma vez identificadas as características de cada um dos escolhidos para compor o sexteto titular, e reconhecidos também seus pontos mais fortes e os mais fracos, o treinador passa a ter elementos concretos para a armação tática de sua equipe.
A análise comparativa entre os dois atacantes titulares da mesma função tática, permitirá ao treinador determinar qual atacante de ponta e qual central serão colocados, na armação inicial da equipe, em posições próximas à do levantador. Por exemplo: se o levantador iniciar na posição 1, teremos um ponteiro que sairá na posição 2 e um central na 6. Consequentemente, na posição 5 haverá o outro ponteiro, enquanto na 3 o outro central. Claro que o oposto estará na posição 4.
Portanto, os atacantes que forem posicionados inicialmente próximos ao levantador, terão no rodízio, duas passagens na rede com o levantador e uma com o oposto. Aqueles que não ocuparem, na formação inicial, as posições próximas do levantador, farão apenas uma passagem de rede junto ao mesmo e estarão em dois rodízios no fundo da quadra, quando ele estiver na rede. Portanto é fácil de entender que o oposto jamais estará ao mesmo tempo na rede com o levantador.
A determinação dos ponteiros e centrais que atuarão na rede de dois ou na de três, escalados na formação inicial em posições próximas ou distantes do levantador, deve ser muito bem pensada, pois influenciará de forma determinante nas armações táticas da equipe. A formação para a recepção com suas saídas para o ataque (“side out”), formação defensiva, formações ofensivas, de proteção ao ataque e contra ataques, e possíveis variações em cada uma das passagens do rodízio, serão consequência da distribuição inicial escolhida pelo treinador para a sua equipe.
Critérios para o encaixe adequado das peças – jogadores
Uma vez definidos os prováveis jogadores titulares, há a necessidade de o treinador analisar com requintes de detalhamento as características de cada um deles, para fazer um “encaixe” perfeito das peças, de maneira que o conjunto formado por eles, espelhe o máximo da performance que aquele conjunto possa produzir.
Visualizar como cada atleta se encaixa na estrutura da equipe, para seu melhor aproveitamento e colaboração em relação às características dos seus companheiros de equipe, reflete a capacidade do treinador na arte de montar uma equipe. Uma tática individual rica dos atletas, nas ações individuais e nas coletivas (capacidade de adaptação às situações circunstanciais necessárias ao conjunto), muitas vezes é determinante para as tomadas de decisão definitivas do treinador.
Características do levantador
O levantador muitas vezes é determinante na estruturação tática de
uma equipe que adota o sistema 5X1. É preciso fazer uma análise cuidadosa quanto às suas:
Características físicas:
- Estatura para bom alcance e para bem atacar e bloquear
- Velocidade de aceleração, agilidade e equilíbrio
- Se é destro ou canhoto
Características técnicas e táticas:
- Precisão em bolas rápidas, médias ou lentas
- Regularidade para levantar com diferentes tipos de passes (A, B, ou C), para cada posição da rede ou do fundo.
- Capacidade de leitura e antecipação: para infiltrações ou qualidade das ações defensivas dos colegas de equipe.
- Capacidade para executar largadas ou ataques de 2ª
- Capacidade para trabalhar bem em suspensão
- Capacidade de antecipação em relação às ações dos seus atacantes, principalmente em relação aos centrais.
- Competência para realizar ajustes em relação às características dos diferentes atacantes de sua equipe. Por exemplo: os dois centrais titulares da equipe não têm a mesma característica técnica, velocidade e tempo de bola.
- Regularidade (ao longo de toda a partida – sendo ela fácil ou difícil)
- Inteligência, criatividade e liderança. Um levantador precisa ser muito
comunicativo, incentivador e orientador.
Estas caraterísticas do levantador, uma vez bem identificadas, serão decisivas nas armações de toda estruturação tática da equipe.
Obs: A estatura do levantador, e a sua consequente capacidade de bloquear, também vai interferir nas decisões do treinador, e nas táticas defensivas de sua equipe. Caso ele possa bloquear com efetividade nas três posições da rede, a armação da segunda linha de defesa deverá possuir uma configuração resultante disso, caso contrário, ela será diferente, provavelmente sobrecarregando mais seus defensores no jogo de campo.
Características dos atacantes centrais
Ao analisar as características do seus dois centrais titulares, é muito importante que o treinador considere os requisitos técnicos e táticos que essa função tática solicita: como atacante ele tem a incumbência de realizar sempre que possível a “chamada” da primeira bola (em velocidade), de forma não só a ser uma opção de ataque, mas também atrair o bloqueador de primeira bola do adversário, de maneira a prejudicar a montagem dos bloqueios coletivos por parte dos oponentes. E como bloqueador, deve ser efetivo nas três posições da rede. Portanto, os centrais devem possuir:
Características físicas:
- Ótima estatura e impulsão, para bom alcance e para bem atacar e bloquear
- Velocidade de aceleração e agilidade
Características como atacante:
- Capacitação técnica: variações quanto aos tipos de bolas de velocidade, eficácia nas diferentes posições da rede, não apenas no side out, mas também em situações de contra ataques (principalmente nas aberturas pós-bloqueio)
- Tática individual para atacar rapidamente em pequenos espaços
- Capacidade de velocidade de aceleração tanto nos deslocamentos para
atacar, como para recuar (deslocamento pós bloqueios)
Capacidade defensiva - características como bloqueador:
- Capacidade de antecipação em relação às ações do levantador adversário
- Capacitação para diferentes tipos de deslocamento
- Capacidade para executar bloqueios simples, duplos ou triplos (nas três
posições do ataque)
- Capacitação para atuar nas marcações homem a homem, por leitura ou por zona.
- Efetividade na proteção de uma área da quadra que pode se responsabilizar como bloqueador
Além das características já apresentadas o central deve também apresentar:
- Regularidade (ao longo da partida)
- Levantamentos: por mais estranho que possa parecer, um atacante central também deve saber realizar levantamentos. Circunstâncias de jogo muitas vezes impedem que o levantador, ou mesmo o líbero, estejam disponíveis para a segunda bola, o que faz do central o responsável pelo levantamento. Levantar para as extremidades – de frente ou de costas – deve fazer parte do arsenal de um central moderno.
- Faz parte das características necessárias a um central ter espírito de equipe. Jogar para o time, pois apesar de sempre ser obrigado a chamar a primeira bola”, pouquíssimas vezes é acionado de fato, e embora ele seja às vezes o responsável por deixar o ponteiro atacar com o bloqueio simples, por prender o bloqueador central do adversário, quem “aparece” mais para a torcida são os atacantes de ponta ou opostos.
- Inteligência: conhecimento convergente e divergente
Obs: Ao comparar seus dois centrais, o treinador deverá decidir qual deles fará a rede de dois e qual a de três. Estatura do levantador, capacidade de bloqueio do levantador e dos centrais, variações de ataques de cada um deles, e velocidade das suas ações devem ser consideradas para tal decisão. A capacidade de cada um dos atacantes de meio em participar efetivamente das ações de contra-ataque, também tem um peso considerável para que sejam escalados na rede de três ou na de dois atacantes.
Características dos atacantes de ponta (passadores)
Uma vez definidos os dois atacantes de ponta titulares, suas características e pontencialidades para harmonização do conjunto serão determinantes para que o treinador os escale na rede de dois ou na de três.
Características físicas:
- Estatura: quanto maior, melhor para atacar e bloquear
- Muita velocidade de aceleração e agilidade.
Características como atacante:
- Mais de força/ ou velocidade
- Eficácia nas diferentes posições da rede
- Eficácia nos ataques do fundo, também quando recepciona ou defende. É mais comum atacar pela posição 6, pois é ali que normalmente se posiciona quando está no fundo.
- Tática individual no ataque, e também em situações de contra ataques. O ponteiro de maiores recursos estará mais apto a enfrentar bloqueios mais pesados.
Capacidade defensiva:
- Competência para a recepção de saques e defesa de campo
- Extensão das áreas pelas quais pode se responsabilizar
- Capacidade de bloquear: no bloqueio simples, duplo ou triplo (nas três
posições do ataque)
- Capacidade de marcação como “homem base”
- Regularidade (ao longo da partida)
- Ter o espírito do finalizador, ser vibrante e muito confiante
Obs: A maioria das equipes que joga no sistema de ataque 5X1 tem na sua primeira passagem do rodízio, o levantador na posição 1, um ponteiro na 2, um central na 3, o oposto na 4, outro ponteiro na 5 e o mais um central na 6.
Esta configuração traz implicações sérias na escalação. O ponteiro que começa jogando na posição 2, ou seja, próximo ao levantador, estará com ele na rede em duas passagens do rodízio e uma com o oposto. Já aquele ponteiro que iniciar o jogo na posição 5 estará acompanhado pelo levantador e pelo oposto em número de vezes diferentes. Caberá então ao treinador decidir quais fatores farão o posicionamento de cada um dos seus dois ponteiros mais efetivos para o conjunto. Esta preocupação leva à classificação comum dos ponteiros no voleibol atual: ponteiro de composição ou de definição. Aquele melhor de jogo de campo (composição), deve colaborar mais para garantir a qualidade da primeira bola em passagens do rodízio em que isso seja vital, enquanto o de definição, deve ser colocado para aumentar o poderio de ataque da equipe, tanto da rede, quanto do fundo. Trata-se de um belo exercício de reflexão para o treinador
A opção da armação inicial ser como a do desenho acima, que posiciona um jogador central na posição 6, quando o levantador está na 1, é feita geralmente para facilitar a formação para a recepção de saque, na terceira passagem do rodízio. Nesta situação o levantador terá seu posicionamento facilitado para realizar a infiltração, pois na posição 4 estará o central, que, por não compor a linha de recepção, estará posicionado mais próximo da rede, facilitando o seu posicionamento. Observe no desenho abaixo:
Características dos atacantes opostos
O jogador escalado para desempenhar as funções inerentes à essa colocação recebeu este nome, oposto, por estar sempre em posição oposta ao levantador. Tanto na rede como no fundo da quadra, ele nunca estará com o levantador.
Suas funções táticas no jogo são: finalizador (tanto nas posições de ataque como nas de defesa) e bloqueador. Trata-se, na prática, do melhor atacante da maioria das equipes atuais. Suas qualidades defensivas, defesa de campo e recepção, não são tão valorizadas como as dos ponteiros ou líberos. Na esmagadora maioria das vezes sequer participa da linha de passe, para poder estar disponível para atacar.
Características físicas:
- Estatura elevada, potência muscular e boa impulsão: quanto maiores, mais alcance no ataque e no bloqueio
Características como atacante:
- Mais de força, ou de velocidade
- Boa eficácia nas extremidades da rede
- Boa eficácia nas diferentes posições da defesa
- Boa eficácia nos ataques do fundo, também quando defende. É mais usual seu ataque de fundo ser realizado pela posição 1, pois é ali que se posiciona após as trocas quando está no fundo. Este posicionamento do oposto no fundo é consequência das ações dos levantadores serem na posição 2.
Tática individual:
- Boa eficácia em situações de ataque e contra ataques
Capacidade defensiva:
- Extensão da área que pode se responsabilizar quando estiver na zona de
defesa, principalmente se o levantador da equipe for baixo.
- Capacidade de bloquear: bloqueio simples, duplo ou triplo (nas três
posições do ataque)
- Capacidade de marcação como “homem base”
Além das características já apresentadas o oposto deve também apresentar:
- Regularidade (ao longo da partida)
- Espírito do finalizador, ser vibrante e muito confiante.
Obs: O jogador oposto se tornou, nos últimos tempos, o um jogador de função tática imprescindível para as equipes de alto nível. Por ser o atacante mais efetivo da atualidade, é a “válvula de escape” para os momentos de dificuldades nas ações ofensivas. Já a sua atuação como bloqueador é fator de equilíbrio para as estratégias defensivas.
Atualmente duas novidades surgiram na atuação dos opostos: ataques estimulados por levantamentos cada vez mais velozes, e a sua participação nas composições das linhas de recepção de saques das equipes. Esta última novidade é consequência do aumento da potência cada vez maior dos saques, o que obriga as equipes a optarem por uma linha de quatro passadores. Por conta da utilização do oposto com integrante das formações para a recepção de saque, não é incomum a armação de equipes que jogam no sistema 5X1 com um oposto passador. Claro que ao optar por este modelo, o treinador deve escalar para esta função, um atleta que não só seja bom de ataque e bloqueio, mas também de recepção de saques.
A importância dos Líberos no sistema 5X1
Um dos fatores que tem contribuído em muito, para a melhoria das transições realizadas em equipes que utilizam o sistema 5X1, é a constante presença dos líberos. Estes atletas que originariamente foram criados para aumentar a capacidade das equipes na realização das ações de primeira bola, com a evolução das soluções táticas passaram também, a trabalhar como levantadores. Muitos atuam como tal, nos impedimentos circunstanciais dos levantadores, com maestria.
Um bom líbero tem muita velocidade de aceleração e agilidade. Os líberos devem ser muito corajosos, determinados e perseverantes. Como são “elementos chave” na composição das equipes, devem ser muito comunicativos e sempre incentivar os colegas. A maioria mostra-se muito vibrante. Devem ser muito resilientes pois não podem se abater com possíveis erros, principalmente na função de recepção onde os mínimos deslizes podem ser fatais. A maioria das equipes utiliza o líbero no lugar de um jogador central, posicionando-o na posição 5 após as trocas, pois é onde ocorre a maior frequência de ataques.
Considerações finais
Ao armar sua equipe no sistema de ataque 5X1, o treinador exercita sua capacidade de análise e de síntese. A reunião de atletas de diferentes características e funções deve se traduzir em um conjunto harmonioso e produtivo. A interrelação entre as atuações de cada um dos jogadores titulares vai definir o padrão de jogo da equipe e dará “personalidade única” ao time. Toda equipe vencedora tem esta personalidade única, que reflete o trabalho de seu treinador. Esta personalidade também espelha a capacidade de empenho e determinação além da técnica e tática. Uma equipe bem montada e bem treinada apresenta sempre transições perfeitamente ajustadas às características de seus atletas, em cada uma das suas seis passagens do rodízio.
Em um momento próximo estudaremos 5X1 com universal.