Perspectivas do voleibol brasileiro rumo a Los Angeles (2028)
O término da Olimpíada de Paris significa, para o voleibol mundial, o início de um novo ciclo olímpico, onde todas as principais seleções nacionais se prepararão para as disputas que ocorrerão em Los Angeles, em 2028. Evidente que elas participarão das suas competições continentais e das mundiais, procurando o melhor desempenho e grandes conquistas, mas sempre com o foco no torneio olímpico. Isso porque, ao contrário do futebol profissional, onde o campeonato mundial é o mais valorizado da modalidade, o torneio olímpico é o ápice de toda a programação do voleibol internacional, assim como para muitas outras modalidades olímpicas.
Este ensaio pretende analisar quais expectativas devemos ter, quanto ao desempenho de nossas seleções em Los Angeles.
Para tanto, iniciaremos com uma breve análise da nossa performance em Paris - nossas virtudes e dificuldades. É necessário avaliar, por exemplo, até que ponto estamos praticando um voleibol que atende às expectativas das tendências atuais. Teremos que verificar como os grupos de atletas que nos representaram naquela olímpiada poderão ser modificados no transcorrer deste ciclo, por razões várias como idade ou inadequações técnicas, táticas ou físicas. Necessitaremos para tanto, também verificar, quais as possíveis reposições de “peças” existentes e como elas estão sendo preparadas nas nossas seleções de base.
Se procedermos da mesma forma com as prováveis seleções adversárias, teremos condições fazer prognósticos quanto às possibilidades de nossos times em 2028.
Os torneios olímpicos de voleibol 2024 mostraram algo de inédito: jamais na história, as competições iniciaram com tantas equipes postulando a medalha de ouro com reais chances de sucesso. No masculino tivemos Brasil, USA, Polônia, Itália, Argentina, Alemanha, Japão e Eslovênia iniciando as competições pensando em título. Já as disputas do feminino iniciaram com Brasil, China, Japão, República Dominicana, Itália, USA, Turquia, Sérvia e Polônia apresentando chances semelhantes de subirem ao podium. O que se viu, nas disputas, foram jogos de altíssimo nível, com muito equilíbrio e equipes apresentando buscas inéditas de soluções técnicas e táticas. Um recorde olímpico! E shows de voleibol!
Os resultados obtidos por nossas seleções, em Paris, espelham bem o que tem sido o desempenho delas nos últimos tempos. A Seleção feminina, que conquistou o bronze, ocupa hoje, o segundo lugar no ranking da FIVB, enquanto a masculina, que sequer disputou as semifinais olímpicas, figura na sétima posição daquele mesmo ranqueamento.
Neste momento, o importante é verificarmos o quanto as disputas da última olimpíada vão impactar o desempenho das nossas seleções neste atual ciclo, até Los Angeles.
A seleção feminina pode ser muito otimista em relação ao seu desempenho ao logo do caminho até Los Angeles. Além de sair muito forte de Paris, onde perdeu apenas uma partida - a da semifinal contra os USA - o nosso time feminino terá provavelmente pouquíssimas alterações, e suas jogadoras mais jovens, que já são ótimas, deverão ganhar ao longo desses anos preparatórios, mais experiência e aperfeiçoamento técnico e tático: casos de Ana Cristina, Julia Bergmann, e Diana que são muito jovens e deverão figurar na lista de 2028. Caso elas consigam aumentar suas capacidades quanto à tática individual de ataque e bloqueio, passarão a ser letais!
Das titulares apenas a excelente central Thaísa não terá idade para continuar, e já anunciou aposentadoria da seleção. Entretanto essa despedida não deve comprometer em muito o desempenho da equipe, pois além da promissora Diana (25 anos e 1,93m de estatura), o Brasil deverá contar, para a posição, com Júlia Kudiess (21 anos e 1,92m de estatura), que só não esteve em Paris devido a uma lesão sofrida no período preparatório da seleção, quando já figurava como possível titular. Ela já está em fase final de recuperação.
Se lembrarmos que várias outras promessas estão surgindo em clubes brasileiros, como são os casos de Helena, Jujú e Luzia dentre outras, podemos estar otimistas com o futuro da nossa equipe feminina. Talvez, tenhamos que preparar, para depois de Los Angeles, novas levantadoras. Podemos, portanto, afirmar que o time feminino do Brasil será, mais uma vez, fortíssimo candidato à medalha de ouro na próxima olimpíada. É ótimo saber que cinco titulares têm idade e condição física para mais um ciclo olímpico: Carol, Roberta, Rosamaria, Gabriela e Ana Cristina, além da líbero Nyeme, um dos diferenciais da equipe. Temos um ótimo time, e praticamente pronto.
Se no feminino o otimismo tem razão de existir, para o masculino temos que ter mais cautela. Nos últimos anos não mostramos o voleibol que nos levou a tantos títulos internacionais. Para voltarmos às conquistas que nos eram costumeiras, teremos que refletir sobre alguns pontos. Possíveis alterações na composição do grupo de atletas poderão acontecer, talvez não por conta da idade pois, nosso levantador, Bruno e o central Lucão estão ambos com 38 anos de idade, mas é a condição atlética que indicará se serão competitivos até Los Angeles.
Entretanto, ao nosso ver, as alterações que a nossa seleção masculina necessita são de ordem técnica e tática, para que ela possa produzir um voleibol que responda positivamente às tendências que as principais seleções têm mostrado. Trata-se de termos atletas que possam mudar a filosofia de jogo que praticamos, para uma mais moderna.
Equipes como Itália, Polônia e principalmente a França, têm apresentado uma mescla muito inteligente entre ataque potente e finalizações direcionadas e variadas. Os nossos atacantes são muito potentes, atacam muito alto, mas com pouquíssimas variações. No voleibol atual, onde as estatísticas determinam os planejamentos táticos, a previsibilidade dos atacantes de força, joga, ao longo dos jogos e das competições, contra o seu próprio desempenho. A mesmice de suas ações antecipa as manobras defensivas adversárias!
Também necessitaremos acompanhar com mais atenção, o crescimento do volume de jogo apresentado pelas melhores seleções, onde a defesa realmente representava o início de contra-ataque de qualidade. Para que isso ocorra precisaremos, não só melhorar a nossa relação bloqueio-jogo de campo, como também a capacidade de todos os atletas atacantes em bem levantar. Como os nossos atletas não figuraram, nem de perto, entre os melhores bloqueadores, segundo as estatísticas oficiais, entende-se que essa seja talvez a razão de defendermos pouco e contra-atacarmos de forma previsível. Em relação ao desempenho defensivo individual, o Thales, nosso líbero ficou em segundo lugar nas estatísticas da olimpíada, entretanto os demais jogadores não se destacaram. Cabe aqui lembrar que a seleção feminina apresentou um grande volume de jogo, muito em função da grande performance das nossas centrais Carol e Thaisa no bloqueio (primeira e terceira colocadas, respectivamente no desempenho deste fundamento) e pela incrível melhoria da Gabriela e da Ana Cristina, quando comparadas em eventos anteriores (oitava e décima nas estatísticas de Paris). E isso foi importante, pois afinal, as ponteiras têm a responsabilidade de bloquear as principais atacantes adversárias, que são as opostas.
Os centrais brasileiros precisam desempenhar suas funções táticas ofensivas com mais efetividade, principalmente nos contra-ataques. A qualidade e as variações apresentadas nos contra-ataques por Polônia, Itália e França demostraram a importância de o voleibol ser jogado por atletas com muitos recursos, inteligentes e criativos, pois atualmente os levantamentos estatísticos determinam as estratégias dentro da quadra.
Enquanto a seleção feminina tem uma linha de recepção de saque invejável, composta por Nyeme, Gabi e Ana Cristina (primeira, terceira e décima colocadas, respectivamente nas estatísticas da olimpíada, nesse fundamento), a masculina mostrou muita instabilidade nesse tópico, o que causou muita pressão em nossos atacantes de extremidades. Temos que melhorar muito a nossa recepção, pois sem ela facilitamos a conquista dos pontos dos adversários quando sacam. Em Paris nenhum brasileiro teve desempenho na recepção que o colocasse entre os melhores. Thales, o nosso destaque, ficou com a décima quarta posição. Será, portanto, imprescindível que os nossos ponteiros consigam formar uma linha de recepção de saque que permita que os nossos levantadores trabalharem utilizando todo o seu potencial técnico e tático.
Vamos torcer também (e trabalhar) para que até Los Angeles, Darlan, Lukas Bergmann e Adriano ganhem mais experiência, mas principalmente, obtenham maior capacidade de tática individual para enfrentarem os sistemas defensivos adversários com maior imprevisibilidade.
Quando se olha para o trabalho desenvolvido pelas seleções de base masculina, para prevermos as nossas possibilidades de reposições para a seleção adulta, verifica-se que, apesar de não estarmos obtendo resultados expressivos com títulos, são muitos os atletas extremamente altos e promissores. Espera-se que eles estejam sendo preparados para jogar um voleibol inteligente, pois como vimos em Paris, somente estatura e força não vão melhorar o nosso desempenho. Entretanto, a qualidade de jogo mostrada por esses novos jogadores, até o momento não é muito animadora.
Fazendo uma análise comparativa das idades apresentadas pelos atletas de todas a equipes que participaram dos torneios olímpicos, constata-se que, como no Brasil, pouquíssimos atletas se aposentarão antes dos Jogos de Los Angeles. Isso nos faz prever que as disputas do voleibol em 2028 serão ainda mais acirradas do que o foram em Paris. Esse equilíbrio trará para os campeonatos continentais e mundiais disputas de altíssimo nível, e provavelmente com novidades técnicas e táticas. O voleibol mundial vive, sem dúvida, o seu melhor momento na história!
As disputas em Los Angeles poderão ter, além de tudo que foi apontado neste ensaio, um complicador a mais para todas as seleções, caso a Rússia seja liberada para voltar às competições. Pelos atletas russos que são vistos jogando mundo afora, pode-se esperar presenças fortes daquele país, tanto no masculino quanto no feminino. Vamos aguardar!