Aquecimento para o jogo de Voleibol
O voleibol praticado em alto nível, atualmente tem particularidades táticas, técnicas, e físicas muito diferentes daquele praticado há duas ou três décadas atrás.
As alturas da rede, tanto do feminino quanto a do masculino, continuam inalteradas e permanecem os 2,24 m e os 2,43 m respectivamente. Entretanto, no aspecto prático, é como se a rede estivesse muito mais baixa, pois as médias das estaturas dos atletas aumentaram muito, fazendo com que a capacidade de alcance, para atacar ou bloquear, seja muito maior nos dias atuais. Ao relacionarmos esses dados à evolução do condicionamento físico, teremos atletas com maior potência de ataque.
Como as ações ofensivas são estatisticamente mais exitosas que as defensivas, é surpreendente que a duração dos ralis tenha aumentado, ano após ano, tanto nos jogos masculinos como nos femininos. Esse aumento no volume de jogo pode ser creditado a inúmeros fatores, tais como a atualização constante dos levantamentos estatísticos, para elaboração de treinos e planos de jogo; a crescente valorização dos treinos dos Complexos (K1, K2 e K3), e a maior atenção ao treinamento dos aspectos cognitivos e volitivos, de forma individualizada e coletiva.
Entretanto, acreditamos que entre os fatores que mais tem contribuído para que o voleibol se torne mais espetacular, está o aumento da duração da bola em jogo, que ocorre tanto por meio de soluções defensivas e de proteção ao ataque incríveis, quanto pela valorização das táticas coletivas e individuais, tão dependentes do Sistema Funcional Cognitivo.
Para entendermos melhor a importância da colocação feita acima, Chodzko-Zajko e Moore (1994) nos lembram que “Entende-se por função cognitiva ou sistema funcional cognitivo, as fases do processo de informação, como percepção, aprendizagem, memória, atenção, vigilância, raciocínio e solução de problemas. Além disso, o funcionamento psicomotor (tempo de reação, tempo de movimento, velocidade de desempenho) tem sido frequentemente incluído neste conceito”.
Bompa (2012) nos auxilia ao afirmar que “o treinamento psicológico é necessário para assegurar um desempenho físico elevado, melhorando o Motriz”.
Samulski (2002), colabora conosco quando aponta que “o objetivo do treinamento psicológico é desenvolver e melhorar as habilidades e competências psicológicas (cognitiva, motivacional, emocional e social).
A evolução e aplicação da Psicologia do Esporte e sua importância na busca do alto desempenho esportivo, tem caminhado também para o estudo dos aspectos psico-cognitivos, como: percepção, atenção, pensamento, memória, solução de problemas, reação rápida aos estímulos, raciocínio, tomada de decisão.
Fica evidente, portanto, que o aperfeiçoamento da prática do voleibol é resultado da evolução das formas de treinamento onde os conteúdos motores, técnicos, táticos e psicológicos se fundem cada vez mais, como afirmam Matias e Greco (2010): o conhecimento declarativo e o processual devem ser estimulados contínua e simultaneamente.
A fundamentação científica chegou de forma arrebatadora nas atividades ligadas aos treinos e jogos da modalidade! Nunca foi tão reconhecida a necessidade de uma formação multidisciplinar por parte dos treinadores e demais profissionais que com ela trabalham.
Entretanto essa evolução mostra um paradoxo: a elaboração dos aquecimentos para os jogos continua a ter quase que a mesma configuração utilizada nas últimas décadas.
Vê-se um aquecimento geral, normalmente constituído por deslocamentos variados e alongamentos passivos e ativos. Aqui, a grande novidade é a utilização de faixas ou cordas elásticas, para dar ênfase a determinadas articulações, grupo muscular ou cadeia cinética, mas com movimentos executados no formato de habilidades motoras fechadas, que não são as exigidas pela variabilidade apresentada com a bola em jogo.
Já o aquecimento específico continua sendo composto pela rotina: toque, manchete e ataque e defesa, realizada em duplas, seguida por aquecimento de rede (levantamento e ataques) e finalizada com os saques. Busca-se uma perfeita harmonização entre o emprego das vias eferentes e aferentes, tão importante para a boa execução dos gestos técnicos. Isso é o esperado para o aquecimento ótimo para um jogo, mas seria perfeito se fosse obtido em situações semelhantes àquelas exigidas pela variabilidade específica de um jogo de voleibol. São raras as alterações!
Quando é analisada a organização dos aquecimentos acima descrita, em confronto com as recomendações de Platonov (2008), fica evidente que, muito provavelmente, a maioria dos atletas, ao interagir no primeiro rali de cada jogo, não está pronta para bem executar as ações que lhe serão apresentadas. Para melhor entendermos, vejamos o que diz o referido autor sobre esse assunto: o aquecimento precisa contemplar três tarefas
1- Funcional: interrelações e correspondência entre os diversos sistemas e
mecanismos da atividade planejada
2- Motora: organização do trabalho neuromuscular e intensificação das informações aferentes
3- Emocional: preparação psicológica e ajuste e mobilização para as atividades
Temos então, que o aquecimento realizado como preparação para os jogos, pela maioria das equipes, atende o Aspecto Funcional citado, pois ele estimula a oferta de mais energia para todo o corpo, e exercita os grupos musculares mais envolvidos na prática do voleibol. O Fator Motor também tem sido contemplado, pois os exercícios com bola, principalmente os de rede, favorecem a busca da precisão dos gestos técnicos ao estimularem os perfeitos ajustes entre as vias Eferente (Motora) e a Aferente (Sensitiva).
Entretanto o terceiro quesito apontado por Platonov (2008), a tarefa Emocional (que engloba os aspectos cognitivos), mostra que ainda temos que refletir para bem atendê-lo, de forma a preparar os atletas para a maior exigência feita pela prática do voleibol moderno. Se hoje, como já vimos, a prática do voleibol em alto nível, requer muita tática individual, e consequentemente tomadas de decisões rápidas e corretas, torna-se imperioso que o aquecimento para as partidas deixe os atletas preparados emocional e mentalmente, desde o primeiro rali, para bem responder aos estímulos criados pela variabilidade do jogo.
Platonov (2008) afirma ainda que atividades típicas das modalidades, quando realizadas no aquecimento específico em alta intensidade (90 a 95% da máxima), estimulam as relações do condicionamento e do reflexo, e permitem as realizações eficazes das variações das técnicas esportivas. Segundo esse autor isso é resultado do ótimo fornecimento energético e o ótimo nível da atividade psicológica.
Martin et al (2008) corroboram com essas afirmações apontando que o aquecimento dos atletas, deve ser desenvolvido por meio do posicionamento e da cognição, para a conscientização dos seus objetivos, suas tarefas, suas atuações individuais e coletivas.
Sobre o assunto em questão, Gambetta (2007) faz observações contribuidoras: “O aquecimento, por ser rotineiro, corre o risco de se tornar um tédio e desinteressante para os atletas e não atingir aos seus propósitos. O aquecimento deve ter intensidade progressiva, ser a âncora psicológica, pois faz parte do jogo”.
Como aspectos mentais fazem parte da preparação psicológica dos atletas, representados pelos aspectos cognitivos, motivacionais, emocionais e sociais, acreditamos que para bem responder aos estímulos que o jogar voleibol proporcionará, o aquecimento em sua parte específica, deverá possuir exercícios que contemplem a aquisição de um estado psico-cognitivo específico para a prática da modalidade, e adequado para as prováveis exigências aquele jogo em questão.
Sugerimos que ao término da parte específica do aquecimento de jogo, sejam desenvolvidas tarefas que contenham tomadas de decisões inteligentes e rápidas, realizadas de forma coletiva, mas que estimulem as táticas individuais. Acreditamos que o aquecimento para as partidas contemplará a devida preparação das Funções Cognitivas, inerentes à prática do voleibol, caso contenham exercícios relativos às táticas coletivas, permeadas com imprevisibilidades, que estimulem rápidas tomadas de decisões. Ações que exijam complexidade, como K1, K2 e K3, com certeza aquecerão também cognitivamente as equipes para as partidas, desde o seu início. Volume de jogo!
Entendemos, portanto, que o aquecimento deve levar os atletas a atingirem o ESTADO DE PRONTIDÃO COMPETITIVA proposto por Coutinho e Cozac (2013). Nele os aspectos sensoriais devem estar preparados para atuar seletivamente a cada tipo de demanda competitiva estimulada pelo imprevisto, de forma a produzir respostas adequadas a cada nova situação. Consiste também na obtenção de um estado mental propício para a prática da atividade esportiva.
Provavelmente, o proposto por este texto, será mais facilmente obtido em caso de utilização do tempo para aquecimento de rede, realizado de forma separada, pelas equipes, pois a regra do voleibol, ainda permite tal opção. Interessante também, é lembrar que até os anos de 1980, mesmo sem grandes fundamentações científicas que hoje são apresentadas, não era incomum os treinadores preferirem os aquecimentos de rede em separado, nas partidas de suas equipes.
Vamos pensar em novas soluções?
Bompa TO, Haff GG. Periodização: Teoria e Metodologia do Treinamento. São Paulo: Phorte, 2012.
Chodzko-Zajko WJ, Moore KA. Physical fitness and cognitive functioning in aging. Exerc Sport Sci Ver, 1994;22:195-220.
Coutinho M, Cozac JR. Você está pronto? Talento, Preparação e Prontidão Competitiva. In: Cozac JR. Psicologia do esporte. Cap. 24, p. 119 a 228. São Paulo: ABDR, 2017.
Gambetta V. Athetic Development – The art & Science of Functional Sports Conditioning. – Champaing: Human Kinetics, 2007.
Martin D, Carl K, Lehnertz K. Manual de Teoria do Treinamento Esportivo. São Paulo: Phorte, 2008.
Matias CJ, Greco PJ. Cognição & ação nos jogos esportivos coletivos. Ciências & Cognição [online], vol.15, n.1, p. 252-271, 2010.
Platonov VV. Tratado Geral de Treinamento Desportivo. São Paulo: Phorte, 2008.
Samulski DM. Psicologia do Esporte. 2° ed. São Paulo: Manole, 2002.