O atleta de voleibol protagonista: o papel da competição no processo de formação
Michael Jordan, LeBron James, Kobe Bryan, Larry Bird, Stephen Curry, Joel Despaigne, Andrea Zorzi, Moreno, Aderval, Xandó, Willian, Jacqueline Silva, Isabel, Ana Mozer, Fernanda, Fofão, Ana Flávia, Giba, Ricardinho, Sheila e Gamova! O que estes atletas do basquetebol e do voleibol têm em comum, para que sejam protagonistas e façam a diferença?
O renomado preparador físico norte-americano Vern Gambetta (2007) diz em sua obra Athletic Development: The Art & Science of Functional Sports Conditioning, que na NBA jogam os melhores jogadores do mundo do basquetebol, entretanto, neste universo seleto de atletas, apenas de 2 a 3% deles fazem a diferença, ou seja, determinam na maioria dos jogos, as vitórias de suas equipes. São os atletas protagonistas! Aqueles que são decisivos! Os que nos momentos cruciais das partidas são requisitados e assumem as responsabilidades! Esses atletas tiram o sono dos treinadores adversários e são os que atraem grandes públicos aos eventos esportivos.
Os atletas protagonistas muitas vezes não se diferenciam por ter uma técnica mais apurada que os demais, mas sim por terem eficácia acima daqueles nas situações mais difíceis e decisivas. A técnica, a inteligência, a criatividade, o autocontrole a serviço da boa resolução de situações problemas os caracterizam! Ao atuarem nestas situações, estes seres diferenciados parecem mostrar que têm o prazer em ali estar. São os grandes atores dos melhores espetáculos!
Este preâmbulo nos leva às seguintes questões: poderá o atleta protagonista, como foi acima definido, ser formado através de treinamentos e atuações competitivas nas categorias base? Será que esse atleta possui algo de genético que faz com que ele seja um privilegiado? Ou será que ambas as coisas na verdade se complementam?
Também é de nosso interesse tentar saber se para um atleta de tal magnitude, a sua capacidade cognitiva é mais importante que a motora, se é o contrário, ou se são fatores interdependentes.
Por fim, tentaremos buscar respostas para as dúvidas tão frequentes, quanto aos procedimentos mais adequados para a gestão do desenvolvimento das carreiras de atletas que despontam ao protagonismo.
Esse é um assunto muito recorrente em nosso esporte! Recentemente vimos surgir um novo talento para o voleibol feminino do Brasil, uma provável protagonista no futuro. Ana Cristina, de 17 anos, é o nosso exemplo. Esteve atuando com a seleção brasileira adulta na Liga das Nações, nas Olimpíadas de Tóquio. Logo após estes dois torneios, aconteceu quase que simultaneamente o Campeonato Sul-americano e o mundial sub 18 feminino, onde ela não esteve presente por opção da Comissão Técnica da nossa seleção. Este estudo foi motivado por essa decisão, para efeitos investigativos e não para fins de críticas a quem quer que seja!
Este fato, para efeito de estudo, nos leva a indagar: para a formação de uma atleta protagonista, não é importante que ela defenda o seu país nas seleções de sua faixa etária, onde ela seria tratada, pelas suas colegas e adversárias, como tal? Não é importante para uma atleta, em processo de formação, sentir a responsabilidade de ser a jogadora decisiva em jogos de sua idade? Ou para a sua formação é mais indicado ela ser tratada como um diamante em processo de lapidação, só jogar na equipe adulta e, portanto, seus sucessos serem enaltecidos e os erros minimizados, em função da baixa idade?
O que acontece na prática é que ela como integrante de uma equipe adulta, mais experiente, normalmente só participa do jogo durante 2 ou 3 pontos e com o set já definido. Ao passo que se estiver jogando na sua categoria, vai atuar muito mais, em mais sets, mais jogos, em que vai passar pelas situações de decisão, quando a equipe está perdendo, quando a equipe está ganhando, além de poder exercer um papel de liderança em quadra e fora dela.
As respostas às indagações feitas acima, merecem uma investigação bastante apurada, pois a práxis tem mostrado atletas de primeira linha com históricos bem distintos.
Enquanto países bem-sucedidos no voleibol internacional tais como: Rússia, França, Itália e Brasil, usualmente já utilizam suas “promessas” nas disputas de equipes adultas, os USA preferem que os participantes da NBA, no caso do basquete, e dos campeonatos Universitários de Voleibol (os mais importantes do basquete e do voleibol, respectivamente da América do norte) concluam antes as suas atuações nas competições colegiais.
O primeiro dado, que nos parece interessante para que possamos tentar responder as nossas dúvidas, é relativo às características que devem possuir os atletas em formação, para que sejam classificados como um talento para a prática do voleibol e, por consequência, ser um candidato a atleta protagonista. Em termos físicos é considerado importante que os jogadores possuam indicativos de que atingirão estatura final elevada (à exceção daqueles que serão preparados como líberos), biotipo longilíneo e tenham como características mais marcantes a linearidade e a ectomorfia. A aptidão física deve contemplar força explosiva, velocidade de aceleração e de ações, e agilidade, bem como os indicativos que as capacidades coordenativas estarão presentes, para que as habilidades motoras do voleibol sejam aplicadas com requintes nas suas tomadas de decisões.
Bojikian e Bojikian (2011) destacam que, para identificação dos possíveis talentos para a prática do voleibol: “as diferenças não se encontram apenas nas medidas antropométricas e capacidades motoras, mas também nas capacidades psicológicas e cognitivas”. Estas observações nos lembram que os praticantes do voleibol necessitam sempre, ao buscar as melhores soluções em suas intervenções, relacionar cognição e ação, e que as diferentes funções táticas do voleibol (central, ponteiro, levantador, oposto, líbero) requisitam características cognitivas e psicológicas diferenciadas.
Dantas e Manuel (2005) nos lembram também que o inverso também é presente, pois não raramente um atleta muito inteligente e criativo, encontra uma solução para finalizar com sucesso uma ação, mas fracassa por não possuir a técnica mais adequada para tal fim. Isso nos mostra que os aspectos motores e cognitivos são interdependentes na tática individual.
Pelo visto, até este ponto, é primordial ao futuro atleta protagonista a obtenção tanto de boas técnicas para a execução das habilidades motoras do voleibol, como uma capacidade cognitiva capaz de utilizá-las de uma forma precisa e otimizada. Não é incomum, ao longo do processo de desenvolvimento das categorias preparatórias, os treinadores terem uma boa ideia dos atletas que possuem potencialidades para se destacar na idade adulta. Entretanto, o problema está em como conduzir todo o processo de formação para que as previsões positivas se concretizem.
Milistedt, Collet e Vieira (2013) ao desenvolverem um estudo sobre a formação de expertise esportiva, nos lembram que “Quando se trata da formação esportiva dos mais jovens, é necessário que os elementos constituintes do esporte sejam abordados de forma pedagógica e condizentes com o seu processo de desenvolvimento”. Isso impõe que todas as tarefas e exigências propostas aos jogadores em formação, tanto por treinos como por jogos, sejam compatíveis com os seus estágios motores e cognitivos.
O voleibol sendo um esporte de habilidades motoras abertas, solicita por parte dos praticantes, constantes tomadas de decisões e, como já vimos, só serão bem realizadas com boa interrelação entre capacitação técnica e cognitiva. Quem acompanha o nosso esporte sabe que quanto mais próxima da categoria adulta, mais os mecanismos e pressão (tempo, complexidade, organização, precisão, carga física e psicológica) se farão presentes e, vão sendo exigidas tomadas de decisões cada vez mais rápidas, inteligentes e criativas.
A adolescência é a fase de maior neuroplasticidade no período da vida (Andrade et al., 2018). Giedd (2013) aponta que a plasticidade do sistema nervoso depende da maturação do mesmo e é no córtex pré-frontal, que coordena o pensamento executivo, que acontecem grandes mudanças na “habilidade de usar a lógica, tomar decisões e avaliar possíveis riscos”.
Convém lembrar que o processo de maturação é individual, e está ligado à produção do sistema endócrino. Vamos encontrar jovens da mesma idade cronológica, porém em estágios de desenvolvimento maturacional distintos. Essa diferença entre a idade cronológica e biológica pode chegar a 3 anos em média. Sempre lembrando que nas meninas a puberdade costuma chegar dois anos mais cedo que nos meninos. Dado que é comum, que atletas de destaque no voleibol sejam maturadores tardios, maior será o cuidado necessário. Essa é uma questão que não pode ser desconsiderada no planejamento do treinamento e definição dos objetivos para cada atleta envolvida no processo.
Portanto, o presente ensaio nos faz pensar se uma atleta de 18 anos está pronta para jogar voleibol em uma olimpíada, e ainda, se essa participação é benéfica para a sua formação como atleta protagonista.
Sobre o assunto, Markunas (2003) é enfática ao afirmar que as categorias de base devem formar vencedores, através de práticas que levem ao prazer, à satisfação, à realização e ao desenvolvimento. A autora reforça ainda que o jovem precisa esforçar-se na busca do rendimento com alegria e engajamento, e não baseado pela busca do rendimento vislumbrando o profissionalismo. E ainda completa salientando os perigos de uma especialização precoce, estimuladas pelo cotidiano dos treinamentos por participações de competições de adultos, fatores que aumentam as chances de estresse, abandono precoce da carreira e burnout.
Considerações finais
Todo treinador de atletas em categorias de base sonha em formar atletas protagonistas, que se destaquem e construam carreiras de sucesso. O processo de formação dos atletas é de fundamental importância nessa construção. Todos os que atuam ou atuaram na prática dessa formação reconhecem que se trata de um processo complexo e dinâmico.
Não há como negar que alguns aspectos genéticos são fundamentais no voleibol, com a estatura e aptidão física assumindo grande destaque, mas a condução do treinamento, a quantidade de treinamento, e principalmente a qualidade, serão primordiais. O treinador de jovens deve ter total atenção aos aspectos individuais de seus atletas e o monitoramento do crescimento e desenvolvimento, deve ser constante.
Respeitar as etapas e encarar a formação como um processo, que seguirá até a idade adulta, e saber quanto e quando cobrar resultados, é essencial.
Também nunca deve ser esquecido que as participações dos atletas das categorias de base em competições, são fundamentais para sua formação plena, portanto, devem ser planejadas de forma a atender as individualidades e organizadas com muita atenção, responsabilidade e competência por parte de seus treinadores. Participar ou não de competições acima de sua categoria, e como se dará essa participação, devem ser decisões sempre calcadas em bases científicas.
Andrade ALM, Bedendo A, Enumo SRF, Micheli D. Desenvolvimento cerebral na adolescência: aspectos gerais e atualização. Adolesc. Saude, Rio de Janeiro, v. 15, supl. 1, p. 62-67, dezembro 2018.
Bojikian JCM, Bojikian LP. Voleibol. In: Bohme MTS, Esporte Infantojuvenil. Cap 13, p.293-321, S: Phorte, 2011.
Gambeta V. Athletic devolopment: the art and science of functional sports conditioning. Human Kinectics, 2006.
Markunas M. Iniciação Esportiva: características interdisciplinares do treinamento nas categorias de base (Parte III - Psicologia). Revista do Volei, São Paulo, p. 30 - 35, 01 ago. 2003.
Milistedt M, Collet C, Vieira J. A experiência esportiva e o desempenho de jovens atletas de voleibol. In: Jogos Desportivos Coletivos: investigação e prática pedagógica, UDESC, 2013.