O treinamento com jovens no Voleibol: preocupações importantes dos treinadores
O primeiro contato com o esporte ocorre, em geral, na escola ou no clube. A grande maioria dos atletas de alto rendimento iniciou no esporte no período da infância ou da adolescência, e muitos daqueles que não se tornaram atletas de alto rendimento, levaram para o resto de suas vidas as experiências vivenciadas no esporte. Isso reforça a importância de uma iniciação esportiva de qualidade.
Essa iniciação esportiva nem sempre é levada muito a sério por parte dos pais, dirigentes e até mesmo de treinadores. Quando se trata de atletas de alto rendimento, valoriza-se o treinador e a equipe técnica experiente, mas quando se trata de iniciação esportiva, não é dada a importância necessária à qualidade e capacitação dos treinadores. Muitas vezes esse treinamento na iniciação é realizado por leigos, ex-atletas, estudantes, que são pessoas com muito boa vontade, porém, em alguns casos, nem sequer possuem a formação em Educação Física. Essas pessoas às vezes reproduzem práticas aplicadas a atletas adultos, sem a fundamentação adequada, e que por vezes podem até trazer prejuízo para aqueles que praticam. Esse, infelizmente, não é um problema exclusivo do Voleibol.
Os problemas vão desde descaso com a preparação física ou técnica, ou excessos na preparação física ou técnica, até escolhas equivocadas na parte tática que podem impedir que o jovem desenvolva todo o seu potencial. Veja esse exemplo de uma montagem de equipe totalmente equivocada: tive a oportunidade de observar na prática, uma equipe de pré-mirim feminino (sub14) que jogava com um sistema de bloqueio triplo, sendo que as meninas mal ultrapassavam as pontas dos dedos da rede ao saltar para bloquear, e não possuíam sequer uma execução razoável do toque e da manchete.
Ainda mais grave é observar a cobrança de resultados, os gritos, e até mesmo xingamentos por parte de treinadores de equipes principiantes. Colocar a própria carreira e resultados pessoais, como objetivo principal, sem considerar o que é melhor para o jovem atleta, é um comportamento no mínimo antiético e deve ser combatido.
Um trabalho de iniciação adequado e consciente, não pode ser mensurado pelos resultados competitivos. Acelerar o treinamento voltado apenas para a busca de resultado competitivo pode trazer problemas para os jovens atletas. Excesso de treinamentos e competições, tiram muitas vezes o tempo livre que os jovens necessitam para seu desenvolvimento social e cognitivo. A literatura nos apresenta diversos estudos mostrando que os maiores talentos do voleibol não são aqueles que iniciaram mais cedo ou obtiveram resultados competitivos nas primeiras categorias.
Muitos de vocês já tiveram contato com meninas (os) que treinam todos os dias, considerando escola e clube, e jogam mais de 1 vez por semana, além dos fins de semanas. Presenciei meninas chegando para competir no clube (categoria iniciante, sub13) depois de jogar 5 sets na escola, e correr, sem almoçar, para jogar mais 5 sets pelo clube. Isso é saudável? É aceitável?
O problema se agrava quando a jogadora (ou jogador) se destaca na sua categoria e passa a jogar também na categoria acima da sua (tema que abordaremos em uma próxima oportunidade). Essa é uma prática que até pode ser adotada, desde que sem exageros, e respeitando os limites do jovem: físicos, técnicos, táticos, cognitivos, sociais e psicológicos.
É importante conhecer as origens desse jovem, local onde mora, quais são seus hábitos e dificuldades, para poder auxiliá-lo e orientar sua conduta, preocupando-se inclusive com a frequência e rendimento escolar.
Para esse contato mais pessoal com o jovem é primordial a aproximação com a família. Quem trabalha na iniciação esportiva sabe que o apoio dos pais é fundamental para o desenvolvimento do futuro atleta. Certamente você, que trabalha, ou trabalhou na iniciação, tem diversos exemplos de como a atuação dos pais pode ser problemática. Muitos pais, na intenção de apoiarem os filhos, acabam interferindo demais no processo, mesmo de forma remota, em casa, por meio de pressão por resultados, às vezes até aplicando treinamentos paralelos ou, como já presenciei, dando instruções para o seu filho (a) no pedido de tempo do técnico durante um jogo! A explicação de um comportamento por parte do atleta, de mais ou menos autoconfiança, maior ou menor facilidade de relacionamento no treinamento e competição, pode estar no estilo de vida desse jovem e de sua família.
Cabe a nós, profissionais, trazer os pais para conhecer o trabalho realizado, conversar, discutir e até su gerir leituras a respeito de como é importante o apoio por parte da família, e como sem perceber, os pais adotam, por vezes, comportamentos que podem se tornar prejudiciais ao jovem, no caso, por exemplo, de cobranças de resultados. Todos irão compreender e colaborar? Não, mas alguns deles sim, e esses farão a diferença no desenvolvimento de seus filhos.
Uma das razões pelas quais os jovens abandonam a prática esportiva, é o medo de errar. Ora, errar é a característica predominante no jogador iniciante. Se até um jogador da seleção erra, por quê um iniciante não pode errar? O jovem precisa aprender a encarar o erro como um caminho para a aprendizagem e precisa se sentir apoiado quanto a isso, por pais e técnicos.
Rapidamente, outra de minhas experiências: uma menina muito alta que iniciou na escolinha com 12 anos e tinha bastante dificuldade na aprendizagem. Enquanto suas colegas estavam jogando com 13, 14, ela só entrou no banco do time de 15 anos. Foi difícil segurar a motivação, mas com a ajuda dos pais, que compreenderam que ela teria um desenvolvimento mais tardio, ela se manteve dedicada, e com 19 anos foi convocada para a seleção brasileira juvenil, e depois jogou muitos anos a liga Nacional e Superliga.
Se analisarmos detalhadamente as implicações desse treinamento inicial, veremos que o profissional que atua nessa fase deveria ser escolhido com todo o cuidado, e deveria ter competências em todas essas áreas: crescimento e desenvolvimento humano, maturação biológica, psicologia do esporte, planejamento a longo prazo, pedagogia do esporte, além do conhecimento técnico da área específica. Dependendo da modalidade praticada, essa iniciação pode ocorrer mais cedo ou mais tarde. E, de acordo com o que foi abordado anteriormente no site, no texto sobre iniciação precoce, se essa iniciação for trabalhada de forma multilateral, oferecendo ao aluno estímulos diversos para um desenvolvimento integral, isso não configura necessariamente um problema.
Essa iniciação esportiva normalmente coincide com o período da puberdade. O treinador, além de conhecer o assunto, deve ser capaz de orientar seus atletas a respeito das diferenças individuais normalmente existentes e dos processos de desenvolvimento. Para que o treinamento seja adequado às fases de desenvolvimento, as avaliações periódicas são fundamentais no acompanhamento do crescimento e desenvolvimento. O cuidado com a longevidade da carreira do atleta começa na iniciação. Ações com a sobrecarga inadequada podem levar ao overuse e aumentar o risco de lesões.
A criança ou adolescente deve ser o centro do processo. Todas as ações de treinamento e competição devem priorizar o seu bem estar, o que de fato é bom para eles, e vai contribuir para a sua formação não só como atleta, mas como cidadão e ser humano.
O treinador com a formação necessária será capaz de desenvolver nos jovens uma formação esportiva que seguirá com os mesmos ao longo de suas vidas, já que nem todos os jovens que chegam na escola ou clube para uma iniciação em Voleibol, irão se tornar atletas. A prática esportiva, quando bem orientada, pode desenvolver no jovem, além de uma formação física harmoniosa e adequada à fase de desenvolvimento, sua autonomia nas tomadas de decisão, a autossuperação, a capacitação para o estabelecimento de metas pessoais e coletivas, estratégias para resolução de problemas, além, é claro, de uma maior facilitação nas relações interpessoais. É preciso respeito pela integridade não só física como mental do jovem.
O treinador também deve orientar os jovens atletas quanto a uma vida saudável para a prática de esporte, a nutrição adequada para essa prática e para a fase de crescimento, ficando atento aos transtornos alimentares que possam surgir.
A cobrança de resultados pode existir, mas deve ser cuidadosa no sentido de cobrar do atleta apenas o que ele pode oferecer. Algumas das causas de maior estresse competitivo e abandono da prática esportiva por parte dos jovens são a atitude agressiva e cobrança injusta por parte do treinador e dos pais.
Se observarmos a carreira de grandes atletas, veremos que eles sempre citam um treinador na iniciação que foi mais que um técnico, foi um verdadeiro mentor. Assim como é importante a detecção e seleção do futuro atleta, também torna-se importante a seleção do treinador que garantirá o futuro.